15 Setembro 2009

Gente aqui da terrinha. Enúbio Queiroz é de São José do Rio Preto, interior de São Paulo, e tem a virtude de agradar aos ouvidos mais simples e aos mais refinados.


14 Setembro 2009

CANGA DO TEMPO

Para entender melhor a história do "Rubão", Leiam e ouçam Canga do Tempo. A letra é de José Fortuna e Paraíso e foi interpretada por duplas como João Mulato e Douradinho e Lourenço e Lourival.



Canga do Tempo

José Fortuna e Paraíso

Com a canga de madeira os bois carregam
A carga no velho carro em seu vai e vem
Com a canga do meu destino eu carrego a vida
E a vida carrega as dores que o mundo tem

As dores vêm de meus sonhos despedaçados
Estrada esburacada que em mim ficou
Por onde puxei meu carro de amor desfeito
Até que a canga do tempo me calejou

Todos temos nossa canga mas nós não vemos
Puxando a pesada carga da solidão
Até que o carro da vida um dia pára
No lamaçal sem saída do coração

Canga de madeira forte foi desgastando
Pelas estradas batidas desses sertões
A canga do meu destino é bem mais dura
Porque foi feita por muitas ingratidões

Sobras de amores ficaram pelos barrancos
Recordações se perderam nos areiões
Ficou o pó da saudade no cabeçalho
No choro das minhas mágoas nos seus topões

Todos temos nossa canga mas nós não vemos
Puxando a pesada carga da solidão
Até que o carro da vida um dia pára
No lamaçal sem saída do coração

13 Setembro 2009


Aprendi a contar histórias de tanto ouvir as do meu pai. E ainda hoje, apesar da distância e do tempo cada vez mais minguado, ainda me emociono com as histórias singulares do homem mais importante da minha vida...

Há alguns dias meu pai me enviou a história aí em baixo sugerindo que eu a "melhorasse" para publicar no blog. Leiam. Vocês vão concordar que não dava para tirar nem uma vírgula dessa história...


Recordação de Dois Carreiros

Década de 70. Devia ser mais ou menos 1971, 1972, talvez 1973. Final de ano, eu de férias em casa. Ou melhor, na casa de pai e mãe, né? Ali, de "morada mesmo", nunca mais voltei. Saí pra estudar e, como sempre acontece, bati asas e voei, voei... E nunca mais (de morada) voltei.

Isto se passou num sítio lá nas Minas Gerais, município de Iturama, Córrego da Lama. Meu pai precisou sair e me deixou encarregado de receber um gado que ele havia comprado e seria entregue ali no sítio por um amigo nosso, o Armando. Eu teria de receber, contar o gado para conferir o número de reses entregues e depois disto, levá-los na “aguada” para beberem e irem para o pasto. A aguada era uma represa (até grandinha) que havia no fundo de casa. Ela abastecia o pasto que o gado recebido ficaria e o piquete dos bezerros das vacas leiteiras.

E assim foi feito: gado recebido e conferido, fomos tocando o gado até a dita aguada. O gado era constituído quase que só de vacas destinadas a engorda para o abate. Mas ali no meio veio uma velha junta de bois de carro, dois bois comuns, mestiços, sem raça definida. Um amarelo e o outro baio (branco).

Por cima da casa onde morávamos passava uma estrada de acesso às fazendas vizinhas. Por uma destas coincidências incríveis que a vida nos impõe para nos ensinar algo, justamente quando os dois bois carreiros se aproximavam da água, nos chega o som de um carro de boi cantador, eixo de pau, que ia transitando carregado de madeira para cerca (se o carro não estiver pesado, ele não canta, pois o atrito entre as madeiras do carro é leve).

Ao ouvir o som dos carros os dois bois estacaram na hora. O boi baio escutou um pouco, mas as recordações não deveriam ser muito boas, então caminhou até a água e foi beber. Porém o boi amarelo torceu o pescoço, virou e abaixou a cabeça em direção à estrada de onde vinha o som do carro cantado. Ficou escutando o carro cantar, até o som praticamente se tornar imperceptível para nós, o que deve ter demorado alguns bons minutos. Só então ele voltou a cabeça para a posição normal, caminhou até a água da represa e foi beber.

Aquilo me marcou profundamente. Mas somente agora, já no ocaso da vida, é que realmente avalio tudo o que deve ter passado na cabeça daquele pobre animal – quanta luta, quanta ponta de ferrão no corpo, quanta força. Me lembro de alguns animais que chegavam a ajoelhar de tanta força fazer, transportando o “progresso” da época, para agora receber como aposentadoria um lugar lá no frigorífico e ainda servir de pasto a quem eles tanto ajudaram.

Assim também tem sido a vida da gente... As vezes machucados, as vezes machucando outros para obter um pouco de poder. Uma riqueza que é tão ou mais efêmera que a própria vida que passou. E passa tão depressa que nem nos damos conta – quando acordamos já estamos velhos, na hora de ir para o “frigorífico”...

"Rubão" Beluzzo Ribeiro

27 Julho 2009

ENQUANTO O SHOW NÃO COMEÇA

Na próxima sexta, 31 de julho, o Sesc de Rio Preto faz uma homenagem a Zé Fortuna com a dupla Mococa e Paraíso.

Vou estra na primeira fila para ouvir Paineira Velha. Mas enquanto o show não começa, você pode matar a saudade junto comigo:

Paineira velha fiel amiga
Nossos destinos são sempre iguais
Se estou contente você floresce
Quando eu padeço suas flores caem
Nascemos juntos paineira velha
Vamos morrer nesta união
De vossos galhos quero uma cruz
De sua madeira quero caixão


23 Julho 2009

Esse é prá quem gosta de viola. Melhor!
Prá quem gosta música de verdade...


20 Julho 2009


O INCRÍVEL HULK

Há quem diga que criança tem um anjo a mais. E deve ter mesmo. O meu anjo tinha até nome: Hulk. Verdade gente! Não, ele não era verde não. Mas era forte, bravo e parecia uma sombra – aonde eu ia, lá estava ele logo atrás.

O Hulk foi meu primeiro cachorro e minha primeira e única babá. Era um legítimo “tomba lata” e o melhor de todos os cachorros. Eu escolhia onde a gente ia “brincar” e pronto: nem galinha chegava ali perto. Uma vez, enquanto eu brincava distraída, ele saiu correndo e latindo para avisar minha mãe que uma cobra estava se aproximando. Foi o herói do dia e mais uma vez, meu anjo da guarda.

Como todo anjo ele tinha uma paciência ímpar comigo. Agüentava banho de areia, orelha puxada, coisa amarrada no rabo... Nem quando eu resolvia fazer o coitado do Hulk de “cama” ou “cavalinho” ele se zangava.

Mas isso faz muito tempo. Já ouvi tantas histórias contadas na família sobre o Hulk, que já não sei mais o que são lembranças e o que faz parte da minha imaginação. E todo mundo tem uma história sobre ele: meus pais, avós, tios... Porque ele era da família também entende?

Aí hoje, Dia do Amigo, deu saudade desse amigo tão querido que um dia saiu para dar uma volta e não apareceu mais. Mania de anjo né? Eu tenho prá mim que o Hulk tá por aí, pajeando outra menininha...

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Na foto, o pessoal de casa e eu, ainda de fraldas, batendo palmas para meu melhor amigo...

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Tem muito cachorro famoso por aí. Mas entre os caipiras, um é mais famoso que os outros: Pitoco. A letra de Nhô Bentico (Abílio Victor) foi eternizada por Lourenço e Lourival, e conta a emocionante história de um cachorrinho que foi mais que amigo, foi herói.

Pitoco era um cachorrinho
qu'eu ganhei do meu padrinho
numa noite de Natá
era esperto, muito ativo,
tinha dois zóio bem vivo,
sartando pra-cá, pra-lá.

Bem cedo me levantava.
Pitoco que me acordava
c'os latido, sem pará,
me fazia tanta festa,
lambia na minha testa,
quiria inté me bejá.

Nos dumingo, bem cedinho,
pegava meu bodoguinho,
os pelote no borná.
Pitoco corria na frente,
dano sarto de contente,
rolano nos capinzá.

Aquele devertimento
de grande contentamento
ia inté no sor entrá.

Era dumingo de mêis
e dia de Santa Ineis:
tinha festa no arraiá.
Minha mãe, as criançada
tudo de rôpa trocada,
na capela foi rezá;
fugino por ôtra estrada
c'o Pitoco fui caçá.

Hoje, dói minha concência,
pra morde a desobidiência.
Pitoco latia... latia,
mostrano tanta alegria,
sem nada podê cismá;
i eu tacava um pelote,
fazeno virá cambóte,
um pobre cara-cará.

Pitoco me acumpanhava;
de veis in quano sentava
e quiria adivinhá...

De repente fiquei fria
Gritei pr'a Virge Maria,
que pudia me sarvá.
Uma urutu das dorada,
num gaio dipindurada
tava pronta pra sartá!

Pitoco ficô arrepiado,
ficô c'o zóio vidrado
e deu um sarto mortá:
se cumbateu c'a serpente,
repicô tudo de dente,
mais num pôde se escapá.

Pitoco morreu latindo,
os zóio vivo, tão lindo,
foi fechano devagá;
parece qu'inté se ria
da minha patifaria
de num podê le sarvá.
E neste mundo tão oco,
unde os amigo são pôco,
despois que morreu Pitoco
nunca mais tive outro iguá!

22 Junho 2009

VAI OUVINDO

Tem gente que gosta de contar histórias. E tem gente que "sabe" contar histórias, como o Paulo Freire, que tem a viola mais bem temperada que eu conheço!
Como diria o próprio Paulo, vai ouvindo...

01 Abril 2009

A poeira do século

Tudo bem que as coisas estão mudando. Mas livro sem papel? Eu sou das antigas. Adoro livrarias, sou rata de biblioteca e apaixonada por aquele cheiro de livro velho que só os sebos têm.

Tudo bem que através do computador, neste exato minuto, você tem à disposição mais informações que todas as bibliotecas que freqüentei a vida inteira. Mas não dá... Não troco a sensação de ter um livro nas mãos. E aí, sempre que sobra um tempinho, lá vou eu (com lenço no bolso) para o sebo*. Uma hora depois, invariavelmente, começo a espirrar como louca. Saco o lenço do bolso e pronto! Me perco de novo no meio da poeira.

Entre um espirro e outro achei um dia desses uma publicação sobre desmatamento. Um trecho me chamou a atenção: poucas coisas são tão assustadoras quanto ouvir uma árvore cair dentro da floresta. O barulho é parecido com o de um trovão. Espanta pássaros, macacos e os serradores, que correm em disparada. Ao cair, a árvore leva consigo outras cinco ou seis, presas a ela por cipós. Também morre toda a vegetação no lugar onde a árvore cai.

O Seo Matos, que é meio poeta e sempre está ali no sebo para disputar algum livro comigo, se aproximou para ver se o que eu tinha em mãos o interessava. Ele já conhecia o texto. Esperou eu concluir a leitura para comentar: “sabe que na época da seca quando uma árvore cai, levanta tanta poeira que fica difícil respirar. Agora olha que ironia: enquanto a poeira baixa, os serradores esperam embaixo da sombra de outra árvore...”.

Eu ainda estava ruminando o que o Seo Matos tinha dito quando encontrei numa prateleira um livro do Quintana. Achei nele o trecho de um texto que gosto muito: ah, esses livros que nos vêm às mãos (...) e que nos enchem os dedos de poeira. Não reclames, não. Esta poeira é a verdadeira poeira dos séculos.

Tirei a poeira do livro, o coloquei ao lado dos outros que havia selecionado e fui embora. O Quintana ficaria decepcionado se descobrisse que a poeira deste século é outra...




*Prá quem não tem um bom sebo por perto, anote: A Traça e Estante Virtual!

31 Março 2009

“Semo porque semo, e também porque queremo"

Outro dia li essa frase em uma entrevista do Zé Mulato. Na hora não dei muita bola não, mas espia o que aconteceu...

O mês de março passou voando e foi um período “custoso” como dizem os goianos. Daqueles que a gente acorda cedo demais, dorme tarde demais, engole a comida e vai cronometrando cada segundo do dia para não perder tempo em nada... Aí o mês passou num tiro e eu nem vi.

Fui reclamar com uma amiga que a vida estava corrida demais e não sobrava mais tempo para fazer o que eu gosto e na hora ela rebateu: “a vida da gente só é corrida porque a gente deixa ficar assim Flá”. Vichi... Fiquei azeda na hora! Como assim “porque a gente deixa”? Fui embora torcendo o nariz para aquela conversa quando me vem o Zé Mulato prá arrematar a prosa: “semo porque semo, e também porque queremo”. E não é?

Tanta correria para trabalhar mais, ganhar mais dinheiro, comprar mais coisas para depois (só depois!) curtir a vida. E quem foi que disse que a gente não pode ir aproveitando desde já? "Gente" é um bicho besta mesmo viu...

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Prá comemorar as águas de março que eu espero o ano inteiro e o fim da canseira deste mês, um pouquinho de Tom Jobim...

“É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira
(...)
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração”

24 Março 2009

"Nhá Xica", pintura de Almeida Júnior, 1895

Todas as Vidas


Vive dentro de mim uma cabocla velha de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho, olhando para o fogo.
Benze quebranto. Bota feitiço... Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro. Ogã, pai-de-santo...

Vive dentro de mima lavadeirado Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso d'água e sabão. Rodilha de pano.
Trouxa de roupa, pedra de anil.
Sua coroa verde de São-caetano.

Vive dentro de mim a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola. Quitute bem feito.
Panela de barro. Taipa de lenha.
Cozinha antiga toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda. Cumbuco de coco. Pisando alho-sal.

Vive dentro de mim a mulher do povo.
Bem proletária. Bem linguaruda, desabusada,
sem preconceitos, de casca-grossa, de chinelinha, e filharada.

Vive dentro de mim a mulher roceira.
Enxerto de terra,
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos, seus vinte netos.

Vive dentro de mim a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada, tão murmurada...
Fingindo ser alegre seu triste fado.

Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida - a vida mera das obscuras!

25 Fevereiro 2009


Cheiro de história nova

Por muito tempo o Luiz foi melhor amigo. Destes que a gente conhece quando ainda é criança e que crescem do nosso lado, nos conhecendo melhor que a gente mesmo. Foi com o Luiz que eu aprendi que alguns dias têm cheiro diferente.

O tal “cheiro” era um cheiro que só ele sentia. De vez em quando, sem que nada de especial tivesse acontecido, ele olhava pra mim e dizia: “tô sentindo cheiro de história nova”. Aí eu ria, ia para o meu canto e escrevia. Nestes dias eu escrevia direto, sem apagar nada. Só parava quando me sentia mais leve, quando a história inteira tinha saído de mim.

Enquanto isso o Luiz ficava fazendo cálculos, contas e progressões aritméticas. Uma vez me disse que nós dois gostávamos de vírgulas – eu nas palavras, ele nos números. Mas isso já faz muito tempo, quando eu ainda nem imaginava que ia viver disso: histórias, palavras e vírgulas.

Nunca tinha sentido esse tal “cheiro de história nova” até que hoje me lembrei do Luiz enquanto lia o e-mail do João Molento (outro grande amigo que sempre passa por aqui) me cobrando histórias novas. Pela primeira vez senti o tal cheiro que acompanhou minhas histórias de menina. Aí aproveitei para mudar um pouco a cara do blog e colocar coisas novas aqui. E aposto que o Luiz está dizendo agora com o sorriso no canto da boca: “tô sentindo cheiro de história nova”.

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Falando em cheiro, deu vontade de ouvir “Cheiro de Relva”, um clássico da música sertaneja. Foi escrita há 27 anos pelo compositor Dino Franco, o primeiro a dar voz à música com o parceiro Mouraí, que também sabiam: há dias com cheiro diferente. Um cheiro que só algumas pessoas sentem...

Como é bonito estender-se no verão
As cortinas do sertão na varanda das manhãs
Deixar entrar pedaços de madrugada
E sobre a colcha azulada, dorme calma a lua irmã

Cheiro de relva trás do campo a brisa mansa
Que nos faz sentir criança a embalar milhões de ninhos
A relva esconde as florzinhas orvalhadas
Quanse sempre abandonadas
Nas encostas dos caminhos
A juriti madrugadeira da floresta
Com seu canto abre a festa
Revoando toda a selva
O rio manso caudaloso se agita
Parecendo achar bonita
A terra cheia de relva

O sol vermelho se esquenta e aparece
O vergel todo agradece pelos ninhos que abrigou
Botões de ouro se desprendem dos seus galhos
São as gotas de orvalho de uma noite que passou

06 Julho 2008


VIVER NÃO DÓI

"Cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade. A dor é inevitável. O sofrimento é opcional."


03 Maio 2008


PÉTIUORQUI

Outro dia uma colega de trabalho me contou que está aprendendo "patchwork". Demorei alguns minutos para repetir o tal "pétiuorqui" (é assim que se fala) e fiquei curiosa prá saber do que se tratava. Com essa mania besta de "expressões corporativas" (coaching, network, brainstorming, deadline e por aí vai...) achei que ela estava fazendo algum curso da empresa ou coisa assim. Espia isso! Ela está aprendendo emendar retalhos. É isso mesmo! Aquela técnica que nossas avós conheciam muito bem para fazer colchas de retalhos, agora chama "patchwork".

Não faz muito tempo, minha avó chegou em casa com uma colchas dessas. Feita sob medida prá mim: retalhos grandes, todos em tons verdes. A minha cara! Passei um bom tempo admirando a colcha estendida na cama. Um pedaço de pano grudado no outro, tecidos que antes não ficariam bem em lugar nenhum, juntos ali, costurados entre tantos outros, ficaram perfeitos. Eu nem conseguiria imaginá-los em outra composição.

Minha avó, depois de anos costurando, tricotando, crochetando, bordando... resolveu fazer colchas de retalho para a família inteira. Algumas são mais coloridas, outras mais sóbrias. Algumas têm os retalhos perfeitos, exatamente do mesmo tamanho. Em outras ela faz questão de deixá-los desorganizados, se encaixando de qualquer jeito.

Agora mesmo eu entrei no quarto e vi a colcha lá em cima da cama. Tira daqui, bota dali, costura, troca a linha... Me fala se não parece até o dia-a-dia da gente? Nem sempre as coisas combinam, nem sempre sai tudo do jeito que imaginamos. Mas se a gente tivesse um pouquinho de paciência para costurar os retalhos direito...

O problema é que o povo tem mania de complicar as coisas. "Patchwork". Vê se pode...



Colcha de Retalhos

Aquela colcha de retalhos que tu fizeste
Juntando pedaço em pedaço foi costurada
Serviu para nosso abrigo em nossa pobreza
Aquela colcha de retalhos está bem guardada
Agora na vida rica que estas vivendo
Terás como agasalho colcha de cetim
Mas quando chegar o frio no teu corpo enfermo
Tu hás de lembrar da colcha e também de mim
Eu sei que hoje não te lembras dos dias amargos
Que junto de mim fizeste um lindo trabalho
E nessa sua vida elegre tens o que queres
Eu sei que esqueceste agora a colcha de retalhos
Agora na vida rica que estas vivendo
Terás como agasalho colcha de cetim
Mas quando chegar o frio no teu corpo enfermo
Tu hás de lembrar da colcha e também de mim

13 Fevereiro 2008


“CAI DO CÉU, MAS PODE FALTAR”

“Tá achando que isso cai do céu menina?”
Minha mãe gosta de recorrer aos ditos populares para reforçar suas opiniões - sejam quais forem. “Cair do céu” era uma expressão já conhecida em casa, usada tanto para nos impedir de comer doce além da conta, quanto para indicar que o brinquedo que queríamos era caro demais. Era engraçado... É ainda. Tem outra que eu gosto: “tem dó né filha?”. Essa ótima, usada em diversas ocasiões também.
Bom, mas o fato é que estava lendo a Veja outro dia e dei de cara com uma matéria: “Cai do céu, mas pode faltar”. Pronto. Então a coisa é séria mesmo. É a mesma história da panela de doce: quando a gente vê aquele monte de doce pensa que não vai acabar nunca. Mas acaba gente... Ô se acaba!
Certo, então vamos lá... Não esperem nada comparado ao Greenpeace, mas começo hoje minha contribuição com a causa ambiental. Acho justo, já que todo mundo pode fazer alguma coisa. E já que estamos aqui oras... Não custa nada.
Pois muito bem, caso você não esteja com paciência agora para ler a matéria publicada pela revista Veja, é bom que saiba pelo menos que segundo a ONU, a escassez de água já tinge 2 milhões de pessoas. Esse número pode dobrar em menos de 20 anos.
Trocando em miúdos: essa prosa pode até não te interessar muito agora mas, considerando que o uso de água imprópria para o consumo humano é responsável por 60% dos doentes no mundo (por dia, 4 mil crianças morrem de doenças relacionadas à água, como a diarréia), isso pode fazer alguma diferença no seu dia-a-dia. Como diria minha mãe, “tem dó” né gente? Custa fechar a torneira para escovar os dentes e tomarum banho mais curtinho?


Já usei essa em outro artigo. Mas como trata-se do João Pacífico, vale a pena repetir!

Pingo D'Água
Composição: Raul Torres e João Pacífico

Eu fiz promessa
Pra que Deus mandasse chuva
Pra crescer a minha roça
E vingar a criação
Pois veio a seca
E matou meu cafezal
Matou todo o meu arroz
E secou meu argodão
Nesta colheita
Meu carro ficou parado
Minha boiada carreira
Quase morre sem pastar
Eu fiz promessa
Que o primeiro pingo d'água
Eu moiava a frô da santa
Que tava em frente do altar
Eu esperei
Uma sumana
Um mês inteiro
A roça tava tão seca
Dava pena a gente ver
Oiava o céu
Cada nuvem que passava
Eu da santa me alembrava
Pra promessa não esquecer
Em pouco tempo
A roça ficou viçosa
A criação já pastava
Floresceu meu cafezal
Fui na capela
E levei três pingo d'água
Um foi o pingo da chuva
Dois caiu do meu oiá

18 Janeiro 2008

SACI NÃO EXISTE
Tenho um amigo que cria Saci. A criação dele está grande já. De vez em quando escapa algum correndo atrás de um redemoinho e dá um trabalho danado. Só volta quando ameaça chover (todo Saci tem medo de água...). Contei essa para uma amiga que não botou muita fé na história não. Mas esse negócio de criar Saci não é de agora. Há mais de 90 anos
Monteiro Lobato lançou uma campanha no Estadão pedindo aos leitores que mandassem casos de aparições do Saci Pererê. Aliás, acho que Lobato foi o maior entendido em assuntos de Saci.

Mas aí veio desmatamento, a luz elétrica clareando tudo (falei que eles também não gostam de claridade?) e o Saci foi entrando em extinção. Isso até a década de 80 quando o engenheiro paulista
José Oswaldo Guimarães, lá de Botucatu, encontrou um criador de sacis em Itajubá, no sul de Minas. Guimarães gostou da idéia e levou um casal de Sacis para repovoar a mata de Botucatu. A criação ficou tão grande que o Guimarães precisou de ajuda. Por conta disso nasceu a Associação Nacional dos Criadores de Saci (ANCS).

Aí pronto! Danou a aparecer Saci em tudo quanto é lugar. Os Sacis (veja você que o assunto é sério!) foi objeto de estudos até de cientistas da UNESP e UNICAMP, que filiaram-se à ANCS e não pararam mais de pesquisar essa história. Você já deve ter visto o Guimarães por aí contando essa história no Jô Soares, no Fantástico, Globo Repórter... Até Dona Tereza, mãe do Guimarães, passou uma manhã com a Ana Maria Braga outro dia explicando como se prepara a
Polenta do Saci.

Eu já vi um Saci. Uma vez só, rapidinho. Mas vi. O danado tem a pele escura e alguns podem chegar a um metro e meio de altura. Tem o cabelo tão vermelho, mas tão vermelho, que fica parecendo um gorro. Pois é, por isso esta história de que Saci usa gorro vermelho. Ah! E o cachimbo! Na verdade aquilo é um pedaço de bambu que eles gostam de mastigar.

Eu, que só conhecia o Saci do
Sítio do Pica-Pau Amarelo, gostei dessa história de criar Saci em casa. Ainda não comecei minha criação porque precisa espaço e um pouquinho de tempo. Mas se você também se interessou pelo assunto, em Rio Preto temos a Saciação de Amigos e Criadores Interioranos de Sacis. No site da Associação Nacional tem mais histórias também. Mas já vou avisando: tome cuidado quando for procurar informações sobre o assunto. Quem conhece um pouquinho de Saci sabe que ele mexe em tudo! Esconde as coisas, aperta o tal do caps lock, o scroll lock, o F13... Quando a gente se dá conta vichi! Mas espia lá... Vai que você também começa sua criação?


Grande Final

Gal Costa (Composição: Moraes Moreira)

Viver dá pé, dá pé viver
Pé de saci

Pererê, pererê, pererê, pererê
Viver dá pé, dá pé viver

Pé de saci
Pererê, pererê, pererê, pererê
Não nego a minha parte
Entrego a vida à arte
De ser feliz, de ser feliz
Na Terra ou em Marte
Em qualquer planeta
Qualquer país, qualquer país
Palavra de fé eu li
Cidade qualquer, nação, continente
Onde gente houver há de haver fé
Há de haver felicidade
Correr sim
E não correr do perigo
É sem fim
Eterno, moderno e antigo o amor
Ô ô ô ô ô
Eu vim
Pra fazer o carnaval, promessa
Fazer o grande final
Onde tudo de novo começa
Eu vim
Pra fazer o carnaval, promessa
Fazer o grande final
Onde tudo de novo começa
Viver dá pé, dá pé viver
Pé de saci
Pererê, pererê, pererê, pererê
Viver dá pé, dá pé viver
Pé de saci
Pererê, pererê, pererê, pererê...

16 Janeiro 2008

SERÁ QUE CHOVE HOJE?

“Vô! Que horas são?”
Eu adorava perguntar isso quando era menina. Não que saber a hora certa me interessasse. O que eu adorava mesmo era ver meu avô olhando para o sol, com uma pose que, por alguns segundos, o fazia parecer um cientista (eu achava que isso era coisa só de cientista). Alguns segundos depois ele passava as mãos nos olhos ardidos e respondia.

Aí eu corria como louca para perto de quem estivesse com um relógio de pulso e confirmava: ele tinha acertado de novo. E tinha mais: o céu contava tudo para ele – se ia chover demais, se ia chover de menos, se a seca estava perto ou se no dia seguinte teríamos ventania... Não falhava nunca!
Aí ontem, quando saí do trabalho, parei rapidinho em uma banca de jornal que fica a caminho de casa. Sabe aquela conversa de quem está sem conversa? “Mas esse tempo tá maluco mesmo”, reclamou o japonês dono da banca. “De manhã tava bom, fresquinho. Aí veio um calorão e parece que já vai chover de novo”. Para não esticar muito a prosa eu respondi: “Mas essa época é de calor, verão é assim mesmo né?”. Achei que o assunto tinha encerrado. Mas o senhor que estava do lado entrou na conversa: “o inverno começa quando?”. Antes que desse tempo de responder o japonês se adiantou. “Inverno? Mas antes não tem outono? Ou é primavera?”.

Aí pronto... A conversa foi longe. Falaram das enchentes, do frio fora de época, da falta do frio, do calor e de mais calor ainda. Eu olhei para o sol que começava a sumir tentando imaginar que horas eram. E só fui embora depois de confirmarmos que estamos em pleno verão e o outono começará exatamente no dia 20 de março, às 2h48 (horário de Brasília!).

O japonês acertou: a noite choveu mesmo. Quando os pingos diminuíram consegui ver a lua rapidinho e lembrei do que escutava quando era criança: “lua cercada, terra molhada”. Acordei com o sol já alto, com cara de quem ia arder o dia inteiro. E fui de novo para o trabalho, torcendo para que chovesse mesmo. E para que o calor fosse calor, o frio fosse frio e que as Flores de Maio que minha mãe cultiva com tanto cuidado, este ano não se confundam novamente e floresçam em maio mesmo, e não em outubro, como na última vez...

Os Pingo da Chuva
Quando o céu estiver preto
e das nuvens até as sombras assombram
É só o reflexo do que está acontecendo
Só está faltando fósforo
Me dê aí!
Não esqueça que nesse momento
o vento sacode as árvores
e o clima que fica e o ar agitado
Dizendo tudo o que pode acontecer
Não escureça nem esquente a cabeça
Eu sei que você tem argumentos de querer
O sol pra pegar sua praia
pra bater sua bola
E a lua pra ver sua mina
ou só pra ir ali na esquina
Sem rima, sem rima!
Faça como eu que vou como estou
porque só o que pode acontecer
É os pingo da chuva me molhar!
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Para não perder as estações anote aí: o Outono começa no dia 20 de março às 02h48min; o Inverno no dia 20 de junho às 20h59min; a Primavera só chega no dia 22 de setembro às 12h44min e o próximo verão está longe... Só no dia 21 de dezembro, pertinho do natal.

14 Janeiro 2008


QUERER BEM

Depois de ouvir mil tradutores em todo mundo, uma pesquisa britânica elegeu a palavra saudade como a sétima mais difícil do mundo para se traduzir. Explicar saudade é mesmo complicado... Mais fácil é sentir essa danada que no final das contas, apesar de judiar da gente, acaba servindo de inspiração.

"Para sempre é muito tempo. O tempo não pára!

Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo..."

Mário Quintana, jornalista e poeta brasileiro - 1906/ 1994


"Ouvi um sabiá cantando
Um canarinho também
Um cantava e outro respondia
Como é triste querer bem
Ai, ai, ai, ai, ai meu bem que dor,
Não posso viver alegre
Ausente do meu amor.

Que vida de um passarinho
Onde vai fazer seu ninho
Na mais alta laranjeira
No derradeiro galhinho
Ai, ai, ai, ai, ai meu bem que dor,
Não posso viver alegre
Ausente do meu amor.

A saudade é companheira
De um coração desprezado
Que vive sempre sozinho
Sem ter ninguém a seu lado
Ai, ai, ai, ai, ai meu bem que dor,
Não posso viver alegre
Ausente do meu amor"


Querer bem - Zico e Zeca

A foto acima, de Alfred Eisenstaedt, já virou clichê e há alguns anos disseram até que o fotógrafo teria forjado a cena. O que é verdade: o marinheiro e a enfermeira da Times Square viraram símbolo eterno do fim da guerra. Segundo conta a lenda, o casal – que na verdade não era um casal – protagonizou um dos beijos mais vistos da história quando ficaram sabendo da rendição dos japoneses e o final da II Guerra Mundial no dia 14 de Agosto de 1945. A foto foi publicada 13 dias depois na Life Magazine.

10 Janeiro 2008

O JOELHO JUVENAL

Eu não lembro direito da melodia. Só lembro mesmo de um pedacinho da música que fala: "joelho ralado, é debaixo de chuva, é debaixo de sol, é no meio da lama". Lembro dessa parte porque era a parte que parecia comigo: joelho ralado. Ou, para quem preferir, "escalavrado"...
Aprendi esse palavrão aos 9 anos por causa de um joelho. Não por causa do meu, mas por causa do Juvenal - O Joelho Juvenal. "Juvenal tinha um problema, coitado: vivia todo escalavrado". Quando eu conheci o Juvenal a gente se parecia bastante. "O Juvenal gostava muito da vida, do vento ventando nele". E eu gostava de chuva, de sol e de lama.
Aí outro dia, conversa vai, conversa vem, o Juvenal apareceu no meio da prosa. Outra pessoa que conhecia o Juvenal! Impressionante... Tudo bem que a gente se dá bem, gosta das mesmas coisas, mas ele conhecer o Juvenal, por essa eu não esperava...
Falar do Juvenal me deu saudade daquela época de "short, calção ou calça curta", que deixavam a gente correr todo feliz pelo mundo. Mas até o Juvenal teve que ceder e aceitar a calça cumprida. E ele tentou perguntar: "que tal criar um modelo de calça prá ver a vida?". Enquanto não criam, a gente fica aqui, com coração escalavrado de saudade daquele tempo em que um pouco de chuva, de sol e de lama, bastavam para deixar a tarde perfeita!


*Esta é para o Príncipe dos Gauleses, que conheceu o Juvenal.
E para a Princesa Clara, que logo, logo vai conhecer...

08 Janeiro 2008

PRÁ CANTÁ CUM SÃO GONÇALO

Se o Seo Tião fosse vivo, estaria fazendo festa agora. Janeiro é o mês de São Gonçalo, o protetor dos violeiros! Claro, lembrei do meu avô, que era devoto do Santo e não perdia uma Festa de São Gonçalo. Para ele (que gostava da história), aqui vai um poquinho deste violeiro "santo".
Existem pelo menos três histórias diferentes sobre a vida deste frade português. Apesar de diferentes, todas concordam em uma coisa: São Gonçalo tocava viola como ninguém! E contam ainda que o santo é casamenteiro - um Santo Antônio violeiro, espia só!
Em janeiro as festas de São Gonçalo tomam conta de várias regiões do Brasil. O ponto alto da festa é a dança de São Gonçalo, realizada em frente ao altar. Dois violeiros ficam entre duas filas de dançarinos: uma de homens, outra de mulheres, lado a lado. Cada região tem sua maneira de dançar, mas sempre tem o sapateado. Aí, depois que cada par finaliza o sapateado, fazem o "beijamento". É isso mesmo que você entendeu: vão beijar o altar, o santo ou as fitas coloridas que estão nele amarradas.
É nesta hora que muitas moças aproveitam para amarrar uma fita para o Santo - um "presentinho" antes do casamento sabe? A fita desta promessa é sempre branca. Só as mulheres casadas que querem fazer um agradecimento ao santo, amarram fitas coloridas.

Das festas de São Gonçalo que o Seo Tião participava, ficaram mesmo só os versinhos:

"São Gonçalo do Amarante
Casamenteiro das moça
Casa a mim primeiro
Para então casá as outra”

"Quando fô pra mim morrê
Eu queru faze um aviso
Incordá minha viola
Com as corda que fô preciso
Pra cantá cum São Gonçalo
E os anjo no paraíso"

O violeiro Paulo Freire dedicou um de seus discos ao padroeiro dos violeiros (que também é considerado o santo da fertilidade e protetor das prostitutas) que conta com a participação de Mônica Salmaso, Wandi Doratioto, Benjamin Taubkin e Toninho Ferragutti. Apesar do CD estar esgotado e sem previsão de relançamento pela gravadora, ainda pode ser encontrado rodando pelo mundo da internet. Vale mesmo a pena conferir!


REVIVA SÃO GONÇALO
De Roberto Corrêa ao amigo violeiro Paulo Freire

Nos pés, cravados na pele, espinhos de flor
o instinto, no enleio da dança, vencido na dor
nas mãos, o toque do violeiro cantador
tiranas, canções de gesta, cantigas de amor.
Viva viva São Gonçalo
reviva São Gonçalim
na dança do entrançado
jornada do trancelim.
São Gonçalo violeiro
é tão triste o meu viver
eu aqui vivo banzeiro
sem ninguém pra me querer.
São Gonçalo do Amarante
seja lá de onde for
tire logo este quebranteque é pr'eu ter um novo amor.

03 Janeiro 2008

APARENTADOS

Pedro Nava era mineiro. Era médico também. E era escritor. Li em algum lugar que Drummond disse que Nava "possuía a capacidade de transformar em palavras o mundo feito de acontecimentos"...

Aí ontem, fazendo aquela tradicional faxina de começo de ano, achei um texto perdido na pilha de papéis que vou juntando a cada semana. Era do próprio Pedro Nava afirmando: "aparentar-se pelo coração é ser amigo". Diga você: quantos aparentados descobriu no ano que passou?

Minha família é gigantesca. Ponto. Nem precisava falar mais nada. Família grande é sempre a mesma coisa: presentes perdidos e esquecidos no final do ano, um milhão de casamentos de primos-dos-tios-dos-irmãos-da-sua-avó, 30 aniversários para lembrar todos os meses, conselho familiar a cada problema, telefonemas de madrugada para contar o que aconteceu ontem na casa da sua tia... A gente não escolhe quem vai ser nosso primo, tio, cunhado... Mas esse povo todo entra na vida da gente e ocupa um espaço tão grande e tão especial que meu Deus! Mesmo com essa confusão toda a gente não consegue viver sem eles.

E mesmo com tanta gente, ainda arrumamos tempo e espaço para "nos aparentar pelo coração". Isso porque tem um tipo de parente que a gente escolhe sim! Aqueles para quem podemos ligar a qualquer momento, qualquer dia (ou madrugada). Gente que ri junto com a gente, chora, critica... São aqueles que não se importam de nos ver aparecer de chinelo de dedo ou roupão. Que brigam, discutem, ficam bravos e aparecem logo depois, sem explicação nem nada. Aqueles que amam e estão por perto mesmo quando estamos cansados, irritados ou quando perdemos a razão (e às vezes tudo isso junto!).

Hoje, talvez pelo clima de natal que ainda sobrou, talvez por conta desse sentimento que as coisas acabam mudando depois de virar a última folha do calendário... Sei lá porque... O fato é que hoje percebi, mais do que nunca, como esses "aparentados por coração" são realmente incríveis.

10 Dezembro 2007

QUEM FALAR PRIMEIRO...
A molecada de hoje não brinca mais dessas coisas. Mas quando eu era pequena a gente tinha umas brincadeiras meio bestas: ficar com o olho arregalado até ver quem piscava primeiro. Ficar em baixo d’água para disputar quem tinha mais fôlego. Conversar sem usar “porque” na frase (essa é difícil, acredite). Ou aquela famosa da “vaca amarela”, para ver quem conseguia ficar mais tempo sem falar absolutamente nada.
Minha mãe adorava este jogo. Nas férias, quando juntava aquele monte de primos em volta dela querendo saber que hora o almoço ia ficar pronto, rapidinho minha mãe gritava: “vaca amarela, pulou a janela, quem falar primeiro...”. O silêncio reinava por alguns minutos. E eu sempre perdia. Ficar em silêncio para mim não era uma brincadeira, era um castigo! Nem ligava de perder, eu queria era falar logo... Nem que fosse para brigar depois (sempre tinha alguém reclamando que eu tinha estragado a brincadeira). E depois que a brincadeira acabava Graziela, minha fiel “escudeira”, explicava com toda calma: “é só falar com o olho que você não perde”.
Eu vivo de “palavras”. Brinco as vezes que ganho a vida só “na conversa”. Mesmo depois de grande, continuo precisando falar, conversar, contar alguma coisa... “Não falar” para mim continua sendo um castigo. A diferença é que agora, sei que posso dizer muito sem falar uma única palavra. Mesmo que as palavras façam toda a diferença, depois que a gente cresce percebe que na verdade, em alguns momentos as palavras só complicam as coisas. É por isso que ultimamente prefiro conversar “em silêncio”. Nelson Gonçalves foi quem melhor explicou isso:

Quem disser que os olhos não tem voz, quem disser que os olhos não falam, saia de perto de nós. Meus olhos falam sempre com os teus olhos, meus olhos tem sempre algo a dizer. Meus olhos dizem coisas aos teus olhos num idioma que só nós podemos entender...

E não é que a Grá estava certa? É só “falar com o olho que você não perde”... A gente cresceu. Mas o desafio continua o mesmo: descobrir quem é que vai falar primeiro.
E aí ninguém fala porque adulto tem um medo de perder a brincadeira...

16 Novembro 2007


LINHA E AGULHA

Era uma vez, uma camisa que virou menina. Uma meia que virou cabelo, uma bermuda que virou sapato e no lugar do coração, um amontoado de retalhos e algodão. "Peraí que só falta mais dois pontinhos no dedão do pé", avisava minha mãe. E pronto! Foi assim que nasceu a Filó. A Filó topava todas: a gente ia para o córrego? Ela era a primeira a cair na água. Comer goiaba no pé? Vichi... Ela chegava lá em cima primeiro que todo mundo. Bolo de barro? Quanto maior, mais feliz ela ficava... E aí quando o dia acabava e começava a disputa pelo chuveiro, a Filó ficava lá no quarto quietinha, só esperando amanhecer de novo. De vez em quando ela dava um susto na molecada! Mas aí rapidinho a gente corria prá casa com ela no colo e minha mãe (que já deixava a linha e a agulha no jeito), fazia a Filó "sarar" rapidinho. Cinco minutos e ela estava novinha em folha para fazer qualquer coisa. Isso já faz muito tempo. E prá falar a verdade já fazia muito tempo que eu não lembrava da Filó... A gente perdeu contato, se afastou. Eu fico imaginando o que ela está fazendo hoje porque naquela época de pé de goiaba e bolo de barro, lembro que queríamos ser arqueólogas. Perdi a conta de quantos buracos fizemos no quintal da fazenda (sob os protestos da minha avó) procurando ossos de dinossauros e vestígios de alguma civilização perdida. Ta achando o que? Brincadeira de criança é coisa séria! Mas o que eu estava contando é que a Filó sumiu. Cresceu, tomou outros rumos. Bons tempos aqueles em que a gente remendava todos os problemas do mundo com linha e agulha...

"O tempo foi se passando e ela se desmanchando
E hoje quem olha pra ela não diz quem é..."
Boneca de Pano, Assis Valente

07 Novembro 2007


PALMAS... ANTES QUE SEJA TARDE

Sábado, sete e meia da manhã. Isso lá é hora de ligar para alguém? Acordei tropeçando no chinelo deixado ao lado da cama, tentando achar a porta e o telefone que tocava. "Alô?". "Flá? Escuta, o Paulinho batendo palma...". Foi assim, com as palmas do Paulinho, que meu dia começou.

Conheci o Paulinho há poucos meses. Dois ou três no máximo. A gente se deu bem logo de cara: gostamos de música, de chocolate e de desenhar. E passamos horas assim em silêncio, levados pela música e pelos traços coloridos que saem como mágica das pontas do lápis de cor. Temos quase a mesma idade - ele tem 27, eu 26. Mas vivemos em mundos completamente diferentes: eu vivo de correria, reclamando da falta de tempo, dos problemas que eu mesma crio, do que gostaria de ter feito, do que adoraria “não” ter feito... O Paulinho não reclama. E tem todo o tempo do mundo.

Cheguei a ler algumas coisas sobre autismo há algum tempo por curiosidade. Mas na prática (como tudo na vida), a teoria fica bem distante da realidade. Senti isso de perto quando conheci o Paulinho. Ele não chega a ser indiferente, mas não entende muito bem o que acontece a sua volta. Na maior parte do tempo se comporta como se as outras pessoas não existissem. Às vezes rejeita o contato físico e nos olha como se não estivéssemos ali. Não reage a alguém que fale com ele ou o chame pelo nome. E o mais difícil (talvez o mais doloroso para quem está o tempo todo com ele), é sua dificuldade em mostrar suas emoções - exceto se estiver muito bravo.

Uma vez por semana eu paro tudo para desenhar com o Paulinho. Descobri que ele gosta de Renato Teixeira (como eu disse, a gente se parece...) e por duas vezes, enquanto escutávamos música e desenhávamos, tenho certeza – ele sorriu para mim. Foram dois momentos únicos. Porque ali, no mundo do Paulinho, nossas vitórias são outras. Um sorriso é suficiente para ganhar o dia, a semana, o mês inteirinho. São frações de segundo que me garantem: ele sabe que estou ali.

Há alguns dias assisti ao filme do argentino radicado no Brasil, Hector Babenco: O Passado. Um dos personagens da história (que também não sabe lidar lá muito bem com seus sentimentos) dispara ao longo do filme: “fala agora, antes que seja tarde”. O Paulinho vai embora para outra cidade nos próximos dias. No último sábado, enquanto a mãe dele organizava algumas coisas para a mudança ele encontrou no meio da bagunça um álbum de fotos. Quando viu uma foto nossa juntos, começou a bater palmas. Poderiam ser só palmas. Para mim? Foi uma declaração de amor de um amigo que soube como poucos mostrar todo o seu carinho...

Vai saber quanta gente está esperando você “bater palmas”.
Ou só falar. Falar agora, antes que seja tarde...


“Os verdadeiros amigos do peito, de fé, os melhores amigos (...)
Sabem entender o silêncio e manter a presença mesmo quando ausentes
Por isso mesmo apesar de tão raros, não há nada melhor do que um grande amigo”

Renato Teixeira

21 Outubro 2007

A ÚLTIMA ESTRELA

Eu faço um pedido a última estrela, antes de tudo se apagar...
Meu corpo não está imune a tanta dor e pede pra eu ficar longe disso
Eu fico não, eu fico... Por que que você é tão difícil?
Eu fico inquieto olhando você e nem por isso eu me apago
Meu corpo não quer mais saber de dor... Você não me vê e eu nao desisto!
Resisto, insisto... Por que que você é tão difícil?
Ah, eu vejo você bailando sozinha distante de tudo, solitária rainha num canto do mundo
Me responda do fundo, última estrela: por que que você é tão difícil?

15 Outubro 2007

UMA HORA A FELICIDADE VOLTA

Quando chegava o final do dia, ele sentava na beirada do banco de madeira no canto do alpendre e ficava ali, olhando o céu passar do azul para o cor-de-rosa, anil, púrpura... Era uma confusão de cores. Todo dia o céu dava um show diferente. E todo dia ele ficava ali até o céu escurecer de vez.
Enquanto a noite ia roubando a luz do dia, o peito do caboclo ia ficando apertado. Quase não deixava o pobre respirar. O coração parecia que dava um nó, a barriga ficava esquisita. E aquela coisa estranha na garganta, uma vontade de não sei o quê...
Toda noite era assim. A luz amarela do lampião parecia alumiar a solidão do caipira, que só fazia lembrar da sua cabocla. Quanto tempo fazia ele nem lembrava mais. Dizem que a saudade faz as coisas pararem no tempo. E quando a saudade já não cabia mais na cama ele levantava, pegava a violinha e ia para o terreiro tocar sua paixão. O ponteio da viola tomava conta da noite e invadia a madrugada. E ele tocava.
Cada toque era uma saudade. Saudade do abraço que encaixava no seu peito. Saudade do pé dela procurando enroscar no seu enquanto dormia. Do cheiro que ficava na cama quando ela levantava. Das roupas penduradas pela casa. Saudade da voz, da risada, do colo que agora ele sabia, era seu lugar preferido no mundo inteiro. E do beijo. Moço... Quanta saudade...
A viola chorava pedindo prá chegar logo o dia. E quando o céu ia clareando, a saudade não diminuía. Só ficava escondida, como a escuridão da noite. E voltava no final da tarde quando começava de novo a confusão no céu e no coração do caipira. "Vai saber...", pensava ele. "Uma hora a felicidade volta...". E enquanto esperava ele tocava. Tocava toda sua saudade...

10 Outubro 2007



A VERDADEIRA ARTE DE VIAJAR

A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa,
Como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo.
Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam ali...
Chegamos de muito longe, de alma aberta e o coração cantando!

Mario Quintana (A verdadeira cor do invisível)

28 Setembro 2007

CANTE LÁ QUE EU CANTO CÁ

"Fala direito menina: pa-ta-tiva".
"Pata o que?"

Não saía... Eu tentava, mas não saía. Mas também... Prá que um passarinho tão bonitinho (e tão pequeno) com um nome tão complicado? Eu não entendia. Mas tentava! “Pa-ta-ti-va”... Até que saiu! E quando eu aprendi o tal nome da patativa ficou até mais gostoso escutar ela cantando lá longe, triste, melosa, quando o sol começava a se esconder no final do dia...
Aí, depois de grande, outra “patativa” apareceu na minha vida: Patativa do Assaré. Assim como a "minha patativa", esse poeta matuto era simples e tinha um canto único, só seu. O artista do sertão tem um ritmo e uma cadência diferentes. Para ouvidos desavisados, a melodia pode ser um pouco sem graça e a linguagem sem as habilidades da semântica e da gramática. Nem sempre os poetas sertanejos falam de paixões avassaladoras ou amores perdidos. Mas contam (e cantam) a vida de um jeito tão singular que parece poesia brotando do chão. É como dizia Patativa:

“Na minha pobre linguage, a minha lira servage, canto que a minha arma sente. E o meu coração incerra, as coisa de minha terra e a vida da minha gente”
(Aos poetas clássicos)

Cearense e fã de Castro Alves, Patativa (que nasceu Antônio Gonçalves da Silva), dizia que para ser poeta não era preciso ser professor. "Basta, no mês de maio recolher um poema em cada flor brotada nas árvores do seu sertão". Quando a memória começou a faltar, o poeta resolveu não escrever mais e declarou: "ao longo da vida já disse tudo que tinha de dizer". Morreu em 8 de julho de 2002 na cidade que lhe emprestava o nome. Pouco antes de ir embora escreveu: “Quando chegar o meu fim, sei que a terra me come. Mas fica vivo o meu nome, para os que gostam de mim”.
Não sei se existem patativas na cidade. Nunca ouvi nenhuma. Mas a lembrança do canto daquele passarinho de nome engraçado alegrou meu dia hoje (que precisava mesmo de um fim de tarde com uma patativa lá longe cantando chorosa). Na falta dela, apelei para a sabedoria de Patativa do Assaré:

“Aqui findo esta verdade, toda cheia de razão: fique na sua cidade, que eu fico no meu sertão. Já lhe mostrei um ispeio, já lhe dei grande conseio que você deve tomá: por favô, não mexa aqui, que eu também não mêxo aí! Cante lá que eu canto cá!”

14 Setembro 2007

E SE A MANHÃ VOLTAR?

Que hei de fazer se de repente a manhã voltar?
Que hei de fazer?
- Dormir, talvez chorar"

Manoel de Barros

Quem é que nunca pensou nisso? E "se de repente a manhã voltar?". Dia desses Lya Luft escreveu que a vida deveria nos oferecer um lugarzinho no rodapé da nossa história pessoal para eventuais erratas - como aquelas em tese de doutorado. Uma errata por todas as vezes em que a gente foi bobo, foi ingênuo, foi indesculpavelmente romântico, cego e teimoso... devia haver uma errata possível. Na hora gostei da idéia mas depois... Não sei se mudaria as coisas se "a manhã voltasse".

Lembrei desse poema do Manoel de Barros hoje depois de saber notícias de uma amiga muito querida. Estamos longe uma da outra há muito tempo e mesmo assim, meses e meses sem nos falarmos, me conforta a certeza de que se nos encontrarmos amanhã, toda essa distância vai parecer "nada". Vai ser como há 10 anos (não acredito que já faz tudo isso...), quando acreditávamos que estaríamos perto uma da outra pelo resto da vida.

É engraçado... A gente sabe que a vida pode mudar em um instante. “Racionalmente” sabemos disso, mas "acreditar" mesmo que as coisas vão mudar, que muita gente vai entrar e sair da sua vida, que as coisas vão simplesmente mudar de uma hora para outra... Acreditar ninguém acredita. Ninguém está preparado prá isso. E aí a gente vai fazendo planos, vai imaginando o futuro como algo real, como se não houvesse espaços para outras ocorrências. Mas uma coisa é fato: as vezes, é necessário viver algo inesperado para recolocar as coisas em perspectiva. Por isso concordo com o poeta: "dormir, talvez chorar". Não queria mudar nem um tiquinho da história...



Para aqueles que fizeram essa história ser tão boa de ser lembrada, um poquinho de João Pacífico, meu querido...

"Quis fazer um tema novo e pensei bastante antes de escrever
Eu não quis falar de amor, nem saudade, dor... e nada de sofrer
Em lugar de nostalgia quis dar alegria ao meu coração
Comecei tudo sorrindo e que tema lindo para uma canção
Mas nesta segunda parte, talvez por pura emoção
Fiz um acorde muito trist sem querer no violão
Transformou todo o meu tema, acabei magoando meu coração..."

04 Setembro 2007

VOCÊ JÁ TEVE BICHO DE PÉ?

Eu já. E nem sei quantos porque da época em que era criança, só lembro dos meus pés calçados na escola e na igreja aos domingos. Até nas festa de família, assim que dava uma brechinha... pronto! Rapidinho a gente tirava aquela coisa apertada e deixava o pé respirar. Ficávamos descalços o dia inteiro e não me lembro (com exceção do danado do bicho de pé) de nada mais incomodando meus pés.
A gente conhecia de cor cada pedacinho do quintal, dos trieiros no meio do mato, os buracos de tatu no pasto. As vezes topava o dedão num canto, enfiava o pé num espinho, um estrepe na sola do calcanhar. Se doía? Claro que doía! Aí a gente sentava no chão, tirava o bendito sem cerimônia e continuava a caminhada. O dia terminava logo e meu Deus... a gente tinha muita coisa prá fazer, não podia ficar perdendo tempo com um machucadinho no pé não moço! É verdade que dava um trabalho danado na hora do banho. Mas valia a pena. Ô se valia...
Então tá, isso faz o que... 15, 20 anos? Não é tanto tempo assim vai? Mas olha como a gente "desaprende" as coisas fácil, fácil: outro dia fui matar a saudade do mato. Tratei logo de tirar o sapato prá sentir a terra passando no meio dos dedos, a grama escorregando na sola do pé, aquela sensação boa... Veja só isso: não é que logo de cara pisei num estrepe? E nem era grande não, uma coisinha de nada... Mas aquela coisa pequena doeu tanto que me fez andar de chinelo o resto do final de semana. E meu pé coitado, que agora fica fechado num sapato o dia inteiro, nem pode curtir direito...
Toda hora eu escuto alguém dizendo que o dia está cada vez mais curto, que a gente não tem tempo prá nada e que quando olha no relógio, já acabou o dia. O dia continua do mesmo tamanho meu povo! A gente é que fica parando no meio do caminho para cuidar de uns "espinhos" que nem são tão grandes assim. A parte boa mesmo que é "andar descalço", a gente nem aproveita. Também, fica dando atenção para o espinho... Vou te contar uma coisa: tem espinho no caminho inteirinho. E aí eu pergunto: você vai mesmo perder tempo com "mais um espinho" que apareceu? Claro, vai doer na hora. Mas, como dizia minha mãe, "antes de casar sara"...
Eu tô tentando aprender a andar descalço de novo. Depois que "desaprende" dá um trabalho aprender de novo... De vez em quando eu sinto uma espetada mas nem ligo, vou embora! Até que que já, já, nem sinto nada. E se você é daqueles que não anda descalço e nunca teve bicho de pé, meu amigo... não sabe o que tá perdendo!



Bicho de pé lembra infância. Então hoje vou aproveirar prá falar da dupla Palavra Cantada: Sandra Peres e Paulo Tatit. Esses dois entedem de música, de Brasil e de criança - tudo coisa que eu gosto. Fazem música infantil mas, no final das contas, misturando poesia e brincadeira, acabaram agradando não só as crianças, mas também gente grande como eu!

Pé com Pé
Acordei com o pé esquerdo, calcei meu pé de pato
Chutei o pé da cama, botei o pé na estrada
Dei um pé de vento, caiu um pé d'água
Enfiei o pé na lama, perdi o pé de apoio
Agarrei num pé de planta, despenquei com pé descalço
Tomei pé da situação, tava tudo em pé de guerra
Pé com pé, pé com pé, pé contra pé
Não me leve ao pé da letra
Essa história não tem pé... nem cabeça. Vou dar no pé!

02 Setembro 2007


“Saudade... palavra linda que todos querem falar
Prá gente sentir saudade, saudade tem que deixar
Saudade nesse meu peito chegou a criar raiz
Saudade de longe vem, é saudade de alguém que já me fez feliz”


A saudade continua, Tião Carreiro e Zé Matão

26 Agosto 2007

"...caminhos me levem aonde quizerem e se meus pés disserem que sim (...)


24 Agosto 2007


SE NÃO, NÃO APRENDE

Eu amo milho verde: milho cozido com manteiga e sal, pamonha, cural, cuscuz, polenta... Quando éramos crianças e percebíamos lá em baixo, perto do curral, a plantação de milho verdinha ("embonecando") já sabíamos: era sinal que logo, logo ia ter mutirão para pamonha!
O serviço começava cedo e nós, mesmo pequenos, éramos peças fundamentais na "linha de produção": descascar e tirar o cabelo do milho. Era uma festa! Que só acabava quando aquele monte de milho já descascado ia para as mãos das mães, tias, avós e comadres que ralavam espiga por espiga até tirar aquele caldo amarelinho que mais tarde, já grosso e adoçado, seria a sobremesa de muitos dias.
O dia era longo. Enquanto ralavam o milho (e as pontas dos dedos...), muita conversa, cantoria e risadas tomavam conta do terreiro. A gente espiava tudo de longe, só esperando. De vez em quando um dos moleques passava ali por perto, aproveitava alguns sabugos para improvisar um brinquedo e conferia se ainda faltava muito para o milho virar doce.
No cardápio do almoço, claro, frango ao molho com milho verde feito na panela de ferro. Quem é da cidade e nunca comeu um franguinho feito na panela de ferro (ah sim, e no fogão a lenha!), não tem idéia como isso é bom! Tão bom quanto o cural que era servido como sobremesa: em pedaço ou molinho para comer com colher e canela... Meu Deus, não sei como a gente não ficava "amarelo" com tanto milho!
Mas a parte que eu mais gostava era quando, já com quase tudo pronto, minha avó explicava com toda a "ciência" de quem entende do assunto, como fazer aquela trouxinha que recebe o creme que depois de cozido, vai virar a tão esperada pamonha. Ela fazia aquilo com tanta facilidade! E eu tentava... Vichi! Como tentava. Mas mesmo com todo capricho, quando colocava o creme, sempre escapava um pouquinho aqui ou ali... E aí quando eu já estava desistindo e deixando a palha do lado, escutava a bronca carinhosa da Dona Maria: "Faz de novo! Se não, não aprende!". E aí, quando finalmente eu conseguia, ela fazia questão de cozinhar "minha pamonha" - que eu não perdia de vista nem um minuto! Só para depois comer (como dizia minha avó), com "gosto"...
Há dias que dá vontade de jogar tudo para cima e colocar a "palha" de lado. Quem é que nunca teve vontade de desistir? Aí hoje a tarde, quando fui desembrulhar a pamonha doce que comprei do seu Cecílio, lembrei da simplicidade e sabedoria da minha avó: "Faz de novo! Se não, não aprende!". Já pensou se eu desisto no meio do caminho e perco aquela delícia de pamonha? Hoje, já crescida, mesmo nos piores dias, fico ali insistindo com a "palha", até as mais complicadas. Porque no final, nossa... que gosto que dá!

Quebra de Milho
Renato Teixeira
Composição: Tom Andrade e Manuelito


Mês de agosto é tempo de queimada
Vou lá prá roça preparar o aceiro
(...)

Passou setembro, outubro já chegou
Já vejo o milho brotando no chão
Tapando a terra feito manto verde
Prá esperança do meu coração

(...)
Quando é chegado o tempo da colheita
Quebra de milho, grande mutirão
A vida veste sua roupa nova
Prá ir no baile lá no casarão...

29 Julho 2007

Óleo sobre tela de Welington Almeida Pinto

A SAUDADE É UMA ESTRADA LONGA...

A saudade é uma estrada longa
Que começa e não tem mais fim
Suas léguas dão volta ao mundo
Mas nao voltam por onde vim

A saudade é um estrada longa
Que começa e não tem mais fim
Cada dia tem mais distâncias
Afastando você de mim

Tantas foram as vezes que nos enganamos
Outras vezes nos desencontramos
Sem nem perceber
Mesmo sem razão eu quero lhe dizer
Sem intenção
Ver tudo se perder
Dói tanto, tanto

A saudade é uma estrada longa
Nem é boa, nem é ruim
Vou seguindo sempre adiante
Nunca volto, eu sou mesmo assim

A saudade é uma estrada longa
Que hoje passa dentro de mim
Me armei só de esperanças
Mas usei balas de festim

Mesmo longe, hoje o dia foi seu. Falamos tanto sobre o tempo nos últimos dias. E hoje, um dia de mais saudade do que qualquer outro, me lembrei de Mário Quintana: "Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo...". Parabéns para você meu querido...

23 Junho 2007

DONA FELICIDADE

Sua avó conhece. Sua mãe também. Sua vizinha, sua tia e você, com toda certeza, já ouviu falar do Baú da Felicidade. Como o próprio nome sugere, o Baú do Silvio Santos promete trazer felicidade para todos aqueles que estejam dispostos a pagar um pouquinho todo mês...
Não gosto de escrever sobre felicidade, tristeza, paixão... Aliás, não tenho muita paciência para ler coisas assim. Então se você quiser pular para o texto seguinte ou esperar pela próxima coluna tudo bem, vou entender.
Li hoje um artigo de um amigo muito querido. O título: “felicidade”. Só, mais nada. Em uma página ele fala sobre a felicidade – ou a falta dela. Como está com o “coração partido e como a felicidade é efêmera. Passei algum tempo pensando no texto. E aí resolvi escrever porque mesmo tendo tanto em comum e gostarmos de longas discussões, não conseguiria explicar meu conceito de felicidade para ele apenas falando. Aliás, “falar” sempre foi um problema para mim, escrever sempre foi mais fácil. Acho difícil explicar num artigo curto o que é ser feliz, mas vamos lá...
Fisiologicamente felicidade é a sensação causada ou espontânea. É um momento pelo qual passamos todos dos dias procurando repetir e mantê-lo o maior tempo possível presente. Li em uma entrevista que para um economista americano, felicidade é ganhar 20.000 dólares por ano, nem mais nem menos. Para os monges budistas, felicidade é a busca do desapego. Livros de auto-ajuda definem felicidade como “estar bem consigo mesmo”, “fazer o que se gosta” ou “ter coragem de sonhar alto”.
Segundo o artigo do meu amigo "felicidade é apenas um sentimento efêmero". Discorde se quiser, mas ser feliz para mim é achar a distância certa entre o que se tem e o que se quer ter. Demoramos muito para achar essa distância. Muita gente passa a vida inteira procurando. Muita gente morre sem encontrar. E aí quando acreditamos ter encontrado a tal “dona felicidade” pronto – não é preciso fazer mais nada...
Essa história de que tudo é possível desde que você “deseje de todo o coração” é pura balela (sim, eu também assistia à Xuxa quando era criança). Todos nós temos limitações e devemos sonhar de acordo com elas. Não me entenda mal. Acho que devemos (aliás, acho fundamental!) sonhar muito. Mas não dá para sonhar sem os pés no chão.
Por isso acredito que a felicidade é um processo. Não dá para ser feliz e pronto. Da mesma forma que não dá para ser infeliz para o resto da vida só porque as coisas não saíram exatamente como o esperado, conforme sonhamos.
Sabe o que é o mais legal disso tudo? Sempre dá para mudar o curso, mudar o caminho, começar de novo. E em cada recomeço desse dá para ser feliz demais – muito mais do que antes até! Mas para isso, assim como no Baú da Felicidade do Silvio, é preciso estar disposto a pagar um pouquinho pela “dona felicidade”. Ela não vem de graça meu amigo. Mas o preço que pagamos por ela vale a pena.
E como vale...

É para você meu amigo querido que dedico uma das músicas que mais gosto: Dona Felicidade (sem trocadilhos!). Olha como é simples: “se eu merecer, feliz vou ser pra eternidade”... Beijo para você!

21 Junho 2007

NA TOADA DA VIOLA...

A viola pode ser tocada em diferentes afinações e ritmos. Os mais conhecidos não o Cururu, ritmo básico da viola e bastante usado na música caipira. O Cateretê, que faz aquele rasqueado bonito. E a Toada, um dos ritmos mais bonitos da viola. Segundo o dicionário “toada” é o ato ou efeito de toar. “Toar” por sua vez é o mesmo que emitir som, fazer estrondo.
Temos verdadeiros clássicos tocados neste ritmo: Chico Mineiro, Cabocla Tereza, Pingo d’Água. Todas toadas tristes, cantadas e tocadas com uma dor que não se explica muito bem. Mas que se sente, se entende em cada nota da toada...
Quem não se lembra dos versos de Tristeza do Jeca: “Nesta viola, eu canto e gemo de verdade. Cada toada representa uma saudade”.
Nos últimos dias tenho pensando nas toadas da minha vida. Agora entendo Angelino de Oliveira: “cada toada representa uma saudade”. Sinto apenas não saber tocar nenhum instrumento em dias assim. Seria uma forma de colocar para fora tudo o que está preso aqui dentro e vai fazendo o dia perder a graça, a vida virar uma toada triste...
E aí para ajudar a saudade chega assim: mansa, circulando pelos cômodos, passeando nas varandas da alma... E se aloja no peito, muitas vezes sem pressa de ir embora. Fazendo mesmo uma toada danada dentro desse coração que já não agüenta mais tanto barulho...

23 Abril 2007


"O redemoinho é para desacomodar as coisas, arranjando o desarranjado, e desarranjando o arranjado". José Oswaldo Guimarães*

Vai ver é isso... Um redemoinho passou por aqui e eu nem vi. Porque pelo que eu lembro os redemoinhos são assim mesmo, muito rápidos, ligeiros... Lembro, ainda criança, da gente correndo atrás daqueles redemoinhos que se formavam no terreiro. Os peões da fazenda diziam que era saci fazendo festa. Mas prá gente não interessava o que era. Só queríamos saber mesmo era de alcançar o tal do redemoinho que rodava, rodava e de repente sumia, rápido e ligeiro, do mesmo jeito que tinha aparecido.
Cresci e continuo correndo atrás desse bendito redemoinho. Que insiste em continuar fazendo bagunça. E desta vez passou tão ligeiro, mas tão ligeiro, que só fez foi levantar as folhas que já estavam assentadas no caminho. Fez sujeira, bagunçou o que já era certo e sumiu. Não deu tempo nem ver pra que lado. Eu fiquei aqui ajuntando as folhas novamente, tirando daqui, colocando dali... Mas por mais que ajeite parece que continua tudo fora do lugar. Então agora o jeito é esperar. No próximo redemoinho que passar desacomodando as coisas, quem sabe o desarranjado volte a se arranjar...


*José Oswaldo Guimarães é Presidente da Associação Nacional dos Criadores de Saci

15 Fevereiro 2007

Minha Viola


Eu tenho uma viola, que canta assim

Minha dor ela consola

Quando eu saí do meu sertão

Não tinha nada de meu

A não ser esta viola

Que foi meu pai quem me deu

E pelo mundo eu vou andando

Subo monte, desço serra

Minha viola vou tocando relembrando a minha terra

E quando a tarde vai morrendo vou pegando minha viola

Se estou triste e sofrendo ela é quem me consola

Cada nota é um gemido

Cada gemido é uma saudade

De saudade estou perdido viola, nessa eterna "solidade"

E nesse sertão dos meus amores quando me ponho a tocar

Emudecem seus cantores para nos ouvir cantar

Canta a minha alegria canta para eu não chorar

Entrarei no céu contigo quando minha hora chegar


Composição de Raul Varella Seixas, pai do “maluco beleza” Raul Seixas que gravou a canção no disco "Abre-te Sésamo" em 1980 pela CBS Discos

AMARREI O TEMPO NO POSTE
Tirei férias do mundo. Enquanto todo mundo corria para o litoral, lá estava eu, na pista contrária, trânsito tranqüilo, indo para – segundo alguns amigos – o meio do mato. Prá mim? O paraíso.

Desliguei o celular, esqueci que existia computador, internet, televisão... “Amarrei o tempo no poste”. Deixei meu pé respirar no chão de terra batida e voltei. Agora sim, com bateria completa para enfrentar o armário abarrotado de confusão que a gente deixa prá resolver só mesmo quando começa o tal ano novo.

Esse ano vai sobrar menos tempo para escrever – sempre sobra pouco tempo para o que a gente gosta de fazer – mas vou me esforçar. Mas hoje ainda não vou escrever, vou pegar emprestado:

“Amarro o tempo no poste para ele parar. Boto a manhã de pernas abertas para o sol. Me horizonto para os pássaros. Uma ave me sonha. O dia amanheceu aberto em mim.”

Manoel de Barros é que estava certo... Esse ano “amanheceu aberto”. É melhor começar logo, antes que eu tenha que “amarrar o tempo no poste”...

02 Janeiro 2007

(...)
O sol vermelho se esquenta e aparece
O vergel todo agradece
Pelos ninhos que abrigou
Botões de ouro se desprendem dos seus galhos
São as gotas de orvalho
De uma noite que passou
(...)
Cheiro de relva
Trás do campo a brisa mansa
Que nos faz sentir criança
A embalar milhões de ninhos
A relva esconde as florzinhas orvalhadas
Quase sempre abandonadas
Nas encostas dos caminhos
A juriti madrugadeira da floresta
Com seu canto abre a festa
Revoando toda a selva
O rio manso caudaloso se agita
Parecendo achar bonita
A terra cheia de relva
Feliz 2007 (ainda que um pouco atrasada...) para todos!

26 Dezembro 2006

QUASE IGUAL... MAS DIFERENTE

Me perguntaram essa semana: “quem toca violão é violeiro?”. Não, não é. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa... Apesar do formato parecido, olhando de longe até parece tudo igual. Só parece.

A confusão vem de longe. No início do século passado, o termo viola era usado para se referir aos dois – violão e viola. Essa história começou em Portugal, um dos berços dos instrumentos que afinal de contas, se não são iguais, são parentes bem próximos. O violeiro e compositor Gustavo Pinheiro Machado explicou bem isso: “a viola tinha pais portugueses, o violão tinha pais espanhóis. Ambos eram netos de mouros e bisnetos de hebreus”.

Qual é a diferença então? A viola tem 800 anos. O violão, entre 200 e 250. A diferença principal entre os dois instrumentos é que a viola, um pouco menor que o violão, tem várias afinações e possui cinco ordens de cordas, o que totaliza dez cordas. Já o violão, além se ser maior, possui somente seis cordas individuais.

Mas a diferença entre a viola caipira e o violão vai muito além do número de cordas. O instrumento eleito por músicos como Almir Sater e Tião Carreiro, possibilita cerca de 30 afinações, batizadas com nomes inusitados, como rio abaixo (em sol), cebolão (em mi) e boiadeiro (em lá).

O fato é que essa dupla – talvez a mais famosa do Brasil – registrou até aqui fatos e situações dignos de permanecerem no tempo. Pessoas e histórias que vencem o tempo através da música...

25 Dezembro 2006

NATAL NÃO É DATA

Pronto, acabou o natal. A gente passa o mês inteiro correndo atrás dos presentes, preparando a ceia, esperando o especial do Roberto Carlos... E aí pronto, acabou.

Eu amo o natal. Não a data. Porque a data passa assim num piscar de olhos. Luiz Carlos de Castro Palma – mais conhecido como “Batata” – é jornalista e produtor rural em Altinópolis, interior de São Paulo. Li um artigo seu que dizia “natal não é data, é lugar”. Taí, concordo.

Quando eu era criança o natal começava bem antes do natal... Primeiro chegavam os tios e primos de longe – era o primeiro sinal. Logo depois lá estava minha avó no terreiro apartando os frangos da ceia. No curral já esperavam o boi e o carneiro que fariam a festa nos dias seguintes. Sim, dias. Porque a festa não se resumia na ceia. Ela começava antes e terminava bem depois...

O cheiro da festa infestava a casa toda. Prá todo lado tinha alguém cuidando de algum detalhe. Ai começava a revelação do amigo secreto - que reunia nossa família, os empregados da fazenda e os amigos que vinham comemorar com a gente.
No meio do terreiro uma mesa improvisada com dois cavaletes e tábuas, exibia a fartura do sítio...

De repente a gente ouvia um barulho – sempre eram as crianças que ouviam primeiro. E lá vinha o Papai Noel empurrando uma carriola cheia de presentes. Um dia achamos a roupa do Papai Noel no guarda-roupa da minha mãe. E o natal ficou ainda mais engraçado...

Depois da ceia, no dia seguinte, a chapa do fogão a lenha sempre quente esquentava o que havia sobrado. E a festa continuava, até o último convidado ir embora e sumir lá na frente, depois do mata-burro...

“Natal não é data, é lugar”. Deve ser mesmo.

O natal desse ano já está acabando e enquanto eu estou aqui, escrevendo mais dos milhares de artigos de natal que surgem nessa época, não me lembro de nenhum natal mais gostoso do que os passados nessa época da fazenda. Realmente não era o natal, era o lugar...

Prá terminar o natal desse ano então, aí vai a letra de “Calix Bento” – prometo falar das folias de reis depois!

Ó Deus salve o oratório
Ó Deus salve o oratório
Onde Deus fez a morada
Oiá, meu Deus, onde Deus fez a morada, oiá
Onde mora o calix bento
Onde mora o calix bento
E a hóstia consagrada
Óiá, meu Deus, e a hóstia consagrada, oiá

De Jessé nasceu a vara
De Jessé nasceu a vara
E da vara nasceu a flor
Oiá, meu Deus, da vara nasceu a flor, oiá
E da flor nasceu Maria
E da flor nasceu Maria
De Maria o Salvador
Oiá, meu Deus, de Maria o Salvador, oiá

Acima, foto de Sérgio Araújo no acervo do Museu da Casa do Pontal, no Rio de Janeiro/RJ

07 Dezembro 2006

Apenas dez dedos... mas pareciam milhares

O MAGO DA VIOLA

Numa época em que se fala tanto de magos – que vendem milhares de livros e arrebatam milhões em todo o mundo – resolvi hoje falar sobre o “mago da viola”: Renato de Andrade. Tenho falado bastante dele nos últimos dias e achei que já estava passando da hora de falar dele aqui.

Uns dizem que Renato ficou conhecido como “Mago da Viola” porque parecia ter mil dedos na hora de tocar – fato que fez esse mineiro de Abaeté ser reconhecido mundialmente como um dos gênios da música brasileira. Mas a história não pára por aí. Senta e escuta...

Diz que o Renato tinha um acordo com o “danado”, o “cujo”, o “mofino”, o “coisa ruim”... Aí uma vez perguntaram pra ele se a história era verdade. E ele, tinhoso que era, saiu com essa: contou que uma noite sonhou que estava no inferno. Ouviu de longe um som de viola. Foi ouvindo, ouvindo, seguindo aquele som... Quando não agüentava mais de curiosidade, perguntou para um capetinha que tava ali perto que ponteado rápido era aquele. E o capetinha respondeu: “é o satanás pelejando para imitar um tal de Renato Andrade". Verdade ou não, essa história está no encarte do CD A Viola e Minha Gente, que por acaso, traz a música Renato e o Satanás num ponteado rapidíssimo.

Todo violeiro se considera o melhor da região – não suportam a idéia da existência de outros tão bons quanto ele. Renato, que não era diferente, não confirmava, nem desmentia as histórias que contavam a seu respeito. O que é verdade mesmo na história do violeiro é que ele começou seus estudos musicais ainda moço – não com a viola, mas com um violino. Foi o primeiro a levar a viola caipira para as salas de concerto, inclusive nos Estados Unidos. E mesmo depois de meia década se dedicando à viola, dedilhava e estudava o instrumento que o fez tão conhecido todos os dias.

Parece até mais um causo, mas esse é verdade: Renato de Andrade foi – pelo menos até agora – o único violeiro capaz de tocar cinco mil notas por minuto. A rapidez dos seus dedos rendeu obras como “Formigueiro”, considerada entre as composições de Renato, a música de mais difícil execução. O jornalista Sérgio Gomes, estudioso da cultura caipira, explica que a música “Formigueiro” é inspirada em uma famosa peça clássica: “Ela é inspirada em Moto Perpetuo, de Paganini, um grande violinista italiano que criou esta obra exatamente pra mostrar a capacidade que ele tinha de realizar uma quantidade imensa de notas num mesmo compasso.” A rapidez de Renato Andrade na música Formigueiro chega a 15 notas por segundo!

O Mago da Viola, com seus casos e mil dedos, viajou fora do combinado no dia 30 de dezembro de 2005. Seu Manelim, outro violeiro mineiro dizia: "usa que serás mestre". Renato usou sua última violinha (teve mais de 30 durante toda a vida) até não poder mais. Onde ia, a viola ia junto. “Violão em todo lugar tem, mas viola não é assim”, dizia o violeiro. Renato foi mago, feiticeiro, violeiro... Cada um que o conheceu lhe dá um apelido diferente. Mas uma coisa ninguém discute, seu Manelim estava certo: Renato Andrade foi mesmo um mestre...

30 Novembro 2006

Se um dia vocês virem as folhas amarelas, não reparem, foi a saudade quem pintou...
João Pacífico
(Fotos de Costa Rica, Mato Grosso do Sul)
Viver é um descuido prosseguido... (João Guimarães Rosa)

Quando vai chegando a noite
A natureza desmaia
O sereno vem caindo
Na folha da samambaia
Eu vou na biquinha d'água
E tiro o suor do rosto
Esperando a comidinha
Temperada com bom gosto
Chamo a lua pra catinga
Ao som da modinha boa
E misturo a cantoria
Com os bichos da lagoa
Urutau canta doído
Sapo boi marca o compasso
Afinado com o bordão
Da viola nos meus braços
Noite alta vou dormir
Para acordar bem cedinho
Pois não perco a alvorada
E o cantar dos passarinhos
Pra me desejar bom dia
Coroar o meu sossego
Eu recebo a visita Do cuitelinho azulego

MEU CÉU (Xavantinho/ Zé Mulato)

O sertão está dentro da gente e em toda parte.
(João Guimarães Rosa, Grandes Sertões: Veredas)

Fiz meu rancho na beira do rio
Meu amor foi comigo morar
E na rede nas noites de frio
Meu benzinho me abraçava
Pra me agasalhar...
Mas agora, meu bem,
Vou-me embora,
Vou-me embora e não sei
Se vou voltar...
A saudade nas noites de frio
Em meu peito irá se aninhar
A saudade é dor pungente morena
A saudade mata a gente morena

A SAUDADE MATA A GENTE (João de Barro / Antônio Almeida)

20 Novembro 2006

CHEIROS E CORES

Preconceito.
Não, esse não é mais um artigo sobre racismo, leis, cotas universitárias, etc. Mas pense um pouquinho comigo... Vamos lá: pré (o que vem antes) + conceito (opinião, julgamento, avaliação). Resumindo: pré conceito - conceito ou opinião formados antes de ter os conhecimentos adequados.

Aí outro dia me perguntaram: “mas com tanta coisa prá escrever... Tinha que ser logo música caipira?”. Tinha uai... Eu gosto de música, ponto final. E amo música caipira. E gosto não se discute certo? Mas vamos discutir um pouquinho...

Desde que nossos amigos portugas apareceram por aqui, a música caipira tem sido representante daquilo que o Brasil tem de melhor e de mais puro. Misturou índios, negros, jesuítas, bandeirantes, tropeiros... Tudo no mesmo balaio, de onde saiu a tal música caipira. Já defendi a tese de que por muito tempo nossos violeiros foram “jornalistas do sertão”, ponteando em suas violinhas, as histórias e causos da nossa gente. Então, por módi de que eu ia querer escrever sobre qualquer outra coisa – ou sobre qualquer outro estilo de música “importado”, se eu posso falar de uma coisa nossa, legítima?

O violeiro Yassir Chediak já disse que a viola brasileira tem cheiros e cores. Não entendo nada de música. Apenas gosto. E cada vez que escrevo sobre uma moda, escrevo justamente sobre cheiros, cores... E gente. Escrevo sobre eu e você – que nem gosta de música caipira.

É só uma questão de deixar o tal pré conceito de lado. Quer ver só uma coisa: você certamente já ouviu Beethoven (ou pelo menos ouviu falar dele). Conhecido por suas belíssimas obras, poucos sabem que o alemão Ludwig van Beethoven já foi considerado um “artista do povo”, que gostava tanto de música rural, que compôs dúzias de contradanças inspiradas na vida interiorana.

Ayton Mugnaini Jr., na Enciclopédia das Músicas Sertanejas, garante: “se ainda houver alguma dúvida sobre Beethoven ter algo a ver com música “caipira”, basta lembrar o sucesso de Osvaldinho do Acordeon com sua adaptação da Quinta Sinfonia, que denominou "Sanfonia de Betovem" (que está em seu LP Forró in Concert, de 1981).

É por isso que escrevo sobre música caipira meu amigo... E se você parar para sentir (não só “ouvir”) as letras dos nossos caipiras, vai entender o que o maior violeiro do Brasil, Renato Andrade, definia como música: "uma música bem tocada faz você sentir saudade de uma coisa que você não sabe o que é".

Na imagem acima, de Tarsíla do Amaral, o quadro Operários, pintado em 1933

13 Novembro 2006

JARDIM DA FANTASIA
Paulinho Pedra Azul

Bem te vi, bem te vi
Andar por um jardim em flor
Chamando os bichos de amor
Tua boca pingava mel

Bem te quis, bem te quis
E ainda quero muito mais
Maior que a imensidão da paz
Bem maior que o sol

Onde estás?
Nas nuvens ou na insensatez
Me beije só mais uma vez
Depois volte prá lá.

07 Novembro 2006

RESPEITÁVEL PÚBLICO...

Quanta alegria. Foi armado o circo!
Está em festa o largo da matriz
Em volta dele corre a meninada
E eu brincando junto também sou feliz

Acho que todo mundo já pensou em fugir com o circo um dia. Todo mundo. Mesmo que por alguns segundos. Rapidinho, ali na arquibancada enquanto observava o trapezista. Tudo bem, tem quem não gosta de circo. Eu mesmo tenho uma amiga que tem “pânico” de palhaço... Mas que é um mundo incrível, ah isso é.

Eu amo circo! E quanto menor o circo, melhor o show. É sério! Esse negócio de circo famoso não tem graça... O legal é ver o cara que agora mesmo tava no trapézio, lá fora vendendo maça do amor. A moça que ajuda o palhaço, já, já aparecendo no número do equilibrista. E apresentador com sotaque espanhol (todo mundo tem sotaque no circo) é o mesmo que tira foto com o burrinho pintado de zebra do lado de fora... Isso sim é um espetáculo!

Só fui conhecer circo grande mesmo, do tipo “Beto Carreiro”, depois de adulta. É tudo lindo. Mas ainda prefiro a turma do “faz de tudo”.


Quando estava no ginásio ainda, de vez em quando entrava um ou dois alunos novos. Ficavam pouco tempo. No máximo três meses. Eram do circo. Tinham uma escola nova a cada parada. Aí um dia o circo foi embora - e uma menina ficou. Tinha fugido do circo. Acho que ela tinha uns 16 anos. Nunca esqueci o nome dela: Katiúcia (não era o nome artístico). Foi morar com um moço da escola. Casou, teve um filho. Nunca mais foi ao circo.

Eu ainda tenho vontade de fugir com o circo toda vez que vejo um. Mas claro, nunca tive coragem – e agora, com a correria de todo dia, menos ainda. Aí eu fico imaginando como ia ser. Só imaginando... E fico pensando na Katiúcia. E se ela só tivesse imaginado? Poderia ter dado tudo errado. Mas ela foi mesmo assim. Deve ser essa coisa do circo né? Esse pessoal não tem medo de nada – de buraco na estrada, de não ter público no show, do leão (quando tem um leão...), do trapézio, da falta de sorte... nada!

Já eu, que não cresci em circo, morro de medo de um monte de coisas... E morro de inveja da tal Katiúcia, que conheceu os dois lados da história e pode escolher com qual queria ficar. Já tem uns três anos que a vi pela última vez. Estava casada, três filhos e trabalhava meio período numa escolinha da cidade. Nunca se arrependeu. Ah! E agora ela vai ao circo – pra levar as crianças. Mas voltar para o picadeiro, nunca mais...

Em homenagem à Katiúcia, aí vai a letra de O menino e o circo, de Cascatinha e Inhana.

Minha cidade amanheceu risonha... Chegou o circo, está a anunciar
Grita o palhaço da perna de pau, minha gente acorda para ouvir cantar
E eu, menino, moleque de rua, vou bem na frente prá chamar atenção
Talvez me vendo assim animado, me dê entrada o dono da função

Oh! Raia o sol, suspende a lua
Olha o palhaço no meio da rua

Quanta alegria! Foi armado o circo e está em festa o largo da matriz
Em volta dele corre a meninada e eu brincando junto também sou feliz
"Zé Fogueteiro" hoje vai ao circo, todo exibido veio me contar
Prá queimar fogos já ganhou bilhete e no camarote diz que vai sentar

Oh! Raia o sol, suspende a lua
Olha o palhaço que está na rua

Para juntar dinheiro eu vou depressa vender cocadas que a doceira fez
Vou lavar vidros, vou vender garrafa ou engraxar sapatos prá qualquer freguês
E se de noite, prá meu desengano eu não puder sentar na arquibancada
Eu, de "gaiato" vou "forçando" entrada bem escondido por baixo do pano

Oh! Raia o sol, suspende a lua
Olha o palhaço no meio da rua...

29 Outubro 2006

A VISITA DO VAGALUME

Há quem duvide, mas acredite: correr atrás de vaga-lume é muito divertido. Pelo menos quando a gente era criança... Aí essa madrugada eu, que nem lembrava mais que existia vaga-lume, topei com um bem na minha sacada.

Dizem os antigos que encontrar vaga-lume é sinal de “bom presságio”. E matar um bichinho desse é o mesmo que espantar a felicidade de casa. Na fazenda, já escutei os peões contarem que se guardasse um vaga-lume dentro de um vidro no dia seguinte ele se transformaria em uma moeda de ouro – e claro, a gente nunca tem um vidro por perto quando precisa...

Depois da rápida visita o danado do vaga-lume foi embora. E eu ainda fiquei bastante tempo acordada lembrando que quando criança, morria de curiosidade: da onde vem a luz do vaga-lume? Aí eu cresci e como todo adulto perdi a curiosidade. Bom, aí vai a explicação científica: a luz dos vaga-lumes chama "bioluminescência". A grosso modo isso significa o seguinte: a luz é uma reação química originada no organismo. Quer saber uma coisa que quase ninguém sabe? A “lanterna” do vaga-lume é essencialmente um dispositivo de namoro...

Agora olha como é bom ser criança: as histórias são muito mais interessantes... Quer saber a que ouvia? Então escuta: o vaga-lume, que não era vaga-lume ainda, apaixonou-se por uma estrela. Gostou tanto, tanto dela, que desesperado, pediu – a qualquer um que o ouvisse: “me faz pelo menos parecido com ela”. No dia seguinte, era um vaga-lume. A gente nunca perguntou se ele e a tal estrela ficaram juntos. Já sabíamos o que nos interessava – porque o vaga-lume brilhava...

O fato é que o vaga-lume veio pela sacada, entrou na sala, espiou e foi embora. Nem deu tempo de correr atrás. Depois que ele foi embora corri na estante e achei uma música de Luiz Carlos Garcia e Zezety: Escolta de Vaga-lumes. O vaga-lume não voltou mais. Mas me ajudou a lembrar como era gostoso ser criança...

Voltando pra minha terra eu renasci
Nos anos que fiquei distante acho que morri...
(...) Eu voltei e ao passar na porteira senti o perfume
Eu fui escoltado pelos vagalumes, pois era uma linda noite de luar
SÓ ACABA QUANDO ACABA...

Nunca consegui planejar minha vida. Sempre foi tudo de repente, sem programação, sem pensar muito. Foi assim com a faculdade, com o primeiro emprego, namorado... Nada programado – mas também mais divertido. Talvez por isso as vezes fico com a impressão que alguns pedaços da minha história ficaram incompletos, esperando terminar. Aí essa semana uma amiga veio com essa: “a história só acaba quando acaba”. Então tá...

Hoje resolvi contar uma história porque acredito em certas coisas que não valem a pena explicar agora. O fato é que essa noite sonhei com o maior violeiro que já conheci. Não era famoso. Nunca gravou um disco. Na verdade, tenho apenas duas letras dele rabiscadas em uma folha de papel já gasta pelo tempo. Mesmo assim era o melhor.

Antes de contar uma história ou começar uma moda, seo Tião Freire – pra gente apenas Vô Tião – começava sempre do mesmo jeito. Então não vou quebrar a tradição:

Senhores que tão presente, quero que preste atenção
No assunto dessa moda, vô fazê a improvização
Aqui é o Sebastião Freire, dando vivas prá Rio Preto
Com sua viola na mão

O seu Tião “viajou fora do combinado” – como dizem os caipiras – há dois anos. Deixou muita saudade e uma história que eu adoro contar.


Meus avós foram casados por 57 anos e três meses (já fui convidada para alguns casamentos que não chegaram aos três meses). Quer ver como uma história só acaba quando acaba? Minha avó, dona Orlanda, era noiva. Morava em uma colônia, no interior de São Paulo onde ajudava os pais na colheita de café. Meu avô? Bom, meu avô era como se diz no interior... um pouco “vida torta”. Tocava nos bailes da região, viajava pra lá e pra cá e tinha dois olhos azuis “que ninguém tinha igual” – palavras da dona Orlanda.

Na primeira vez que se viram minha avó tinha apenas 13 anos. Seu Tião, ao lado de um viajante, visitava as fazendas oferecendo serviços de conserto. E como naquela casa a máquina de costura estava sempre quebrando... Só se encontraram novamente seis anos depois, num baile de São João. Ele tocava. Ela dançava com o Eduardo, o noivo. Vou encurtar a história – e você já deve ter adivinhado o final. Poucos meses depois o violeiro e a dona Orlanda se casaram. Tiveram cinco filhos, dez netos.

“Só acaba quando acaba”. E não é que é verdade? Meu avô violeiro que o diga... Há 50 anos noivado era coisa séria. Quem adivinharia que a dona Orlanda e o tal Eduardo não se casariam? Então me responde você: como é que a gente pode ter tanta certeza do fim da história se às vezes ela só ta começando? Vai entender essa vida...

Pra terminar, aqui vai um trechinho de Com amor não se brinca, de Cascatinha e Inhana, em homenagem ao violeiro Tião Freire e a dona Orlanda...

Quem tem alegria, de noite e de dia
Quem não sofreu, meu senhor, não sabe nada do amor
O amor é danado, não escapa ninguém
Vem mascarado e nunca avisa quando vem

Ai, meu senhor, com o amor não se deve brincar não
Ai, meu senhor, eu fui brincar machuquei meu coração

22 Outubro 2006


OLHOS PROFUNDOS

Composição: Renato Teixeira

Feito um menino que permite ao coração
Sair correndo sem destino ou direção
Que vire vento e sopre feito um furacão
Que nesse fogo por amor eu ponho a mão
E até permito as cantorias da paixão

O velho barco toda vez que vê o mar
Fica confuso, com vontade de zarpar
E ver o mar às vezes bem que é preciso
Pra ter certeza de ainda estar-se vivo
Mesmo que o casco esteja velho e corroído

Como uma estrada que vai dar não sei aonde
Por meu destino o coração é quem responde
Braços abertos pra se ver a luz do peito
Com grande amor que seja puro amor refeito
Olhos profundos não me olhem desse jeito...

21 Outubro 2006
















DOIS MALUCOS

Quando eu era criança, morava em Caçú, interior de Goiás. Tinha 7, 8 anos, quando conheci o Tio Pedro e a Maria Louca. Como toda cidade pequena, Caçú tinha seus “personagens folclóricos”, e essa dupla era famosa, principalmente entre as crianças.

O tio Pedro já era um senhor de idade, maltratado pela vida e muito mal humorado. Algumas crianças tinham medo dele. Já eu, que tive a sorte de ter em casa dois educadores de peso, gostava do tio Pedro... Ele morava de favor em várias casas, era meio andarilho. De vez em quando sumia, voltava de novo. Uma vez apanhei na escola porque briguei com um menino que estava jogando pedras nele. Nunca contei isso pra minha mãe. Bom, agora ela sabe... Nunca mais tive notícias do tio Pedro que hoje já não deve estar mais por aqui.

E a Maria Louca? Bom, como o próprio apelido sugere, ela também dava um pouco de trabalho. Andava pela cidade vestindo uma peça de roupa em cima da outra, com sacos pendurados nas costas, gritando com a molecada, xingando um ou outro... Quando a gente não queria dormir os mais velhos ameaçavam: “vou chamar a Maria Louca, a Mulher do Saco...”.

Mas isso já faz muito tempo. Essas duas figuras que marcaram minha infância, provavelmente já foram para um lugar bem melhor. Não conheço a história deles. Sei apenas que eles ajudaram a construir um pedacinho da minha.

Na semana passada finalmente concretizei uma vontade antiga: fiz uma viagem “histórica” pela cidade de São Paulo. Fiz um mapa dos lugares que queria conhecer e a cada parada, eu não sabia se me impressiona com a beleza dos lugares ou a quantidade de marias loucas e pedros que eu encontrava no caminho. Exatamente iguais.

Um dos lugares que mais me impressionou foi a Igreja da Sé. A igreja estava praticamente vazia, mas na escadaria, enquanto subíamos aqueles degraus que pareciam não ter fim, quanta gente meu Deus! Deitados, sentados, alguns dormindo enrolados em cobertores. Todos do lado de “fora” da igreja.

Em nosso último dia na cidade, encontramos um casal de violeiros tocando e cantando na praça da Pinacoteca. Velhinhos já. Fiquei ali, assuntando. No meio da cantoria, o violeiro parou, olhou pra gente e soltou essa: “to aqui cantando, mas to vendo tudo!”. E voltou a cantar...

E eu? Eu voltei pra casa pensando, até quando vamos conseguir ir levando a vidinha da gente e não fazer nada? Semana que vem tem eleição – e eu odeio política, quem me conhece sabe disso. Mas não consegui ficar quieta dessa vez... É fácil demais apertar dois números na urna e pronto. Mas e depois, como é que fica? A gente volta pra casa, continua não fazendo nada e espera por mais quatro anos, torcendo pra desta vez dar certo?

E depois dizem que o Tio Pedro e a Maria Louca é que eram estranhos... Pior somos você e eu. Dois malucos de verdade!

Acima, algumas fotos que fiz dos monumentos históricos de São Paulo.
COISAS PRÁ 2013...

Eu já vi disco voador. Vi uai, fazer o que... Tem gente que acredita, tem gente que acha que é brincadeira. Já contei tanto essa história que até eu duvido dela de vez em quando...
Lembrei disso hoje depois que um amigo me contou impressionado sobre os “raios cósmicos” que atingiram a Terra na última terça-feira. Segundo ele (e Nostramus, que ao que tudo indica previu os tais raios), no dia 17 de outubro, graças aos raios cósmicos, qualquer um podia realizar algum desejo – desde que o fizesse as cinco e dez da tarde, impreterivelmente.
Incrível essa necessidade que a gente tem... Sempre precisa de algo “sobrenatural” pra ter coragem de fazer alguma coisa. E não é de hoje. A gente apela pra tudo nessas horas: santo, simpatia, “raios cósmicos”.
Penso em tudo o que tenho vontade de fazer já, agora. Mas fico esperando a hora certa, esperando dar coragem, esperando o melhor momento, esperando pelos outros, esperando, esperando, esperando... E não faço nada – mesmo quando tudo está exatamente ao contrário do que eu queria. E pra ajudar fiquei sabendo dos raios cósmicos atrasada então, nem com essa ajudinha pude contar...
Agora vou ter que esperar até 2013 – anote aí, é quando teremos outra tempestade de raios cósmicos – pra fazer um monte de coisas. É verdade, ainda tem a segunda opção: parar de esperar. Mas isso já é mais complicado. Ainda é mais fácil fazer o pessoal acreditar nas histórias do disco voador...

Em homenagem aos “raios cósmicos” do meu amigo, aí vai a letra de Disco Voador, composição de Palmeira, da dupla caipira Palmeira e Biá. Hoje seus discos são caçados nos sebos como fossem ouro – a dupla é considerada uma das “mães” da música caipira. A letra, assim como o homem do interior, é simples, mas cheia de sabedoria...

Tomara que seja verdade
Que exista mesmo disco voador
Que seja um povo inteligente
Pra trazer pra gente a paz e o amor
Se for pro bem da humanidade
Que felicidade essa intervenção
Aqui na terra só se pensa em guerra
Matar o vizinho é nossa intenção

Se deus que é todo poderoso
Fez esse colosso suspenso no ar
Por que não pôde ter criado
Um mundo apartado da terra e do mar
Tem gente que não acredita
E acha que é fita os mistérios profundos
Quem tem um filho pode ter dois filhos
O senhor também pode ter outros mundos

Os homens do nosso planeta dão a impressão
De que não têm mais crença
Em vez de fabricar remédio
Pra curar o tédio e outras doenças
Inventam bomba de hidrogênio
Usam o seu gênio fabricando bomba
Mas não se esqueçam que por mais que cresçam
Que perante deus qualquer gigante tomba

O nosso mundo é o espelho
Que reflete sempre a realidade
Quem forma vinha colhe uva
E quem planta chuva colhe tempestade
No tempo em que jesus vivia
Ele disse um dia e não foi a esmo
Que nesse mundo que a maldade infesta
Tudo o que não presta morre por si mesmo

P.S.: Disco voador? Não, a foto aí em cima é um “bolachão”, um disco da dupla Palmeira e Biá, da RCA Candem, de 1966.

19 Outubro 2006

FIM DE ANO E FIM DO MUNDO

...e a transformação da face do mundo é como a transformação da cara da gente, que muda tanto durante toda a vida – mas que, dia a dia, de ontem para hoje, de hoje para amanhã, sempre nos parece a mesma cara no espelho. (Mário Quintana)

Dá uma olhada aí no seu calendário. Olhou? Viu mesmo?
É isso aí, faltam menos de dois meses para o natal. dois meses! Vou te falar uma coisa, eu não sei de você, mas eu não vi o ano passar. Neste exato momento, estou aqui tentando lembrar o que é que eu fiz, o que ocupou tanto meu tempo que fez 2006 simplesmente... passar.

Aí lembrei de Hemingway. Ele não era caipira – nem brasileiro – mas foi um grande escritor. Acho que foi ele quem disse que devemos olhar as coisas como se fosse pela última vez – ou primeira? Não importa, o importante é o olhar. Foi isso que aconteceu com meu ano: eu não olhei prá ele.

To falando de olhar mesmo, ver, perceber. Todos os dias a gente acaba fazendo quase tudo igual – como na música de Chico Buarque – e o que vemos todo dia vira, sei lá... nada? Quer um exemplo: você faz todo dia o mesmo caminho para o trabalho. De tanto ver o mesmo caminho, chega uma hora que não vê mais. Agora imagina quanta coisa eu não vi esse ano!

E sabe aquele moço que todo dia você encontra no caminho para o trabalho? Se a partir de amanhã ele não cruzar mais o seu caminho, você não vai poder dizer que realmente via ele todos os dias. Você nunca perguntou o nome dele, onde mora, o que faz... Não viu nada disso. E agora, não vai ver mesmo... E aí outro ano vai passar e você vai fazer como eu – vai ficar repetindo essa frase batida de fim de ano: “o ano passou e eu nem vi”.

Falando de fim de ano, lembrei de uma música do Rolando Boldrin, um dos meus compositores preferidos: a moda do fim do mundo, uma versão engraçada do que dois compadres fariam com o pouquinho de tempo que sobraria nessa hora. A letra é uma parceria do Boldrim com Tom Zé e Svaniek (prá provar que “intelectuais” - ou os que se acham intelectuais - também gostam de música caipira!).


A Moda do Fim do Mundo

Cumpadi em Brasília, espaiaram
Um boato muito chato
Que o mundo vai se acabar

Vancê fique de oreia no rádio
Vancê fique de oio no jorná
Porque, vou te contar,
No dia que o mundo se acabá
Nesse dia a gente tem que resolver
Que nós temo que esconder
Aquele galo bolinha
Prá dispois do fim do mundo a gente ter
Um macho prás galinha,

Cumpadi também temo que esconder
Aquele touro garanhão,
Grandão e arruaceiro
Prá dispois no fim do mundo a gente ter
O bicho que sabe fazer bezerro,

Vancê fique de oreia no rádio...

Cumpadi pense bem no dia “d”
Que porva vai garrá fedê
E tudo nóis vira mingau
Prá dispois do fim do mundo a gente ter
Um casal do bicho que faz miau,

Cumpadi também temo que alembrar
E a sete chave nós guardar
O cachorro e a cachorra
Prá dispois do fim do mundo a gente ter
Que evitar que a raça morra

Vancê fique de oreia no rádio...

Cumpadi acabei de me alembrar,
Que o jegue irará
Também temo que esconder
Prá dispois do fim do mundo a jega ter
Um jegue prá lhe comer

Cumpadi sabe que na afobação
A gente quase se esqueceu
De guardar uma comadre
Prá dispois do fim do mundo a gente ter
Um pecadinho prá confessar com o padre

30 Setembro 2006

VIOLA QUEBRADA

Me fizeram uma cobrança séria essa semana: onde está a letra de Viola Quebrada que dá nome ao blog? Para quem não conhece, aí vai um pedacinho de Mário de Andrade, um dos maiores poetas que o Brasil já conheceu.

Quando da brisa no açoite a flor da noite se acurvou

Fui encontra com a Maróca meu amor
Eu senti n'alma um golpe duro
Quando ao muro já no escuro
Meu olhar andou buscando a cara dela e não achou

Minha viola gemeu
Meu coração estremeceu
Minha viola quebrou
Meu coração me deixou

Minha Maróca resolveu prá gosto seu me abandonar
Porque o fadista nunca sabe trabalhar
Isto é besteira pois da flor
Que brilha e cheira a noite inteira
Vem de´pois a fruta que dá gosto de saborear

Minha viola gemeu
Meu coração estremeceu
Minha viola quebrou
Meu coração me deixou

Por causa dela sou um rapaz muito capaz de trabalhar
E todos os dias todas as noites capinar
Eu sei carpir porque minh'alma está arada e loteada
Capinada com as foiçadas desta luz do seu olhar...

Clique aqui e escute um trecho de Viola Quebrada

Na foto, o quadro O Violeiro, de Almeida Júnior. A tela, pintada em 1899, está exposta na Pinacoteca de São Paulo
PINGOS D’ÁGUA

“Hoje vai chover”. Ainda não eram nem 8 horas, o sol já estava alto, mas eu sabia! Ia chover!
Estava esperando essa chuva desde que começou a primavera. São as melhores chuvas do ano: o clima está ameno, a chuva não é tão gelada e a gente pode sentir de longe aquele cheiro de terra molhada... Eu sabia que hoje ia chover. E choveu mesmo!
Quando era criança, presenciei várias vezes os peões da fazenda e meu pai, esperando ansiosos por sinais de chuva no céu. Pra eles a chuva era sinal de boa colheita e gado gordo no pasto. Pra mim era mais uma oportunidade de brincar na chuva – mesmo sob os protestos da dona Maria, minha avó. (Mulher incrível! A única pessoa que conheci que consegue citar pelo menos 15 doenças diferentes em menos de 20 segundos – todas resultado da chuva, claro!).
Agora ninguém mais toma chuva. Pode olhar, todo mundo corre dos pingos. Alguns porque a chuva estraga a “chapinha”. Outros porque tem medo de ficar doentes – devem ter falado com minha avó – e há quem simplesmente não tem tempo. Confesso que eu também não tenho mais tempo.
Mas hoje, quando vi a chuva que eu esperei por meses, lembrei com carinho das chuvas do sítio...
Quem depende da terra para sobrevier em algum momento já chorou de emoção ao ver o céu prometendo chuva para a lavoura, para o pasto, para os animais. É o que João Pacífico (meu querido!) e Raul Torres contam na música Pinto D’Água.
Em 1944 uma seca terrível assolava o interior paulista. Em Barretos, João Pacífico se preparava para uma apresentação na cidade quando viu os fiéis rezando e fazendo promessas numa procissão para que a chuva viesse. A reza inspirou o poeta que escreveu Pingo D’Água, depois musicada por Raul Torres. A letra fala sobre uma promessa por chuva e a última estrofe encerra o poema resumindo toda a emoção do homem do interior: fui na capela e levei três pingos d' água: um foi o pingo da chuva... dois caiu do meu oiá.
Coincidência ou não, choveu dois dias depois do lançamento de Pingo D' Água. Uns dizem que foi milagre, outros que foi coincidência. Mas choveu. E ninguém correu prá casa na hora que os pingos começaram a cair.
Em Goiás, durante o período de inverno, a falta de chuvas deixa a paisagem seca e amarelada. Mas aí, quando as chuvas chegam com a primavera, os pastos ficam coloridos: amarelo, branco, roxo. São os ipês, que transformam tudo em um jardim aberto. Mesmo com o mais frio e seco o inverno, aos primeiros sinais de chuva os ipês se enchem de flores.
Hoje, longe do cerrado goiano e dos pés de ipê, me contento com as cores do céu que parece receber pinceladas em dias assim, de chuva: azul, cinza, amarelo, púrpura... Como é que alguém pode correr prá casa sem olhar um céu assim?

Depois de um dia inteiro fechada respirando ar-condicionado, fiquei na dúvida quando a chuva caiu. Assim como Pacífico, não soube se os pingos d’água que molhavam meu rosto eram da chuva, ou do meu olhar...

Eu fiz promessa
prá que Deus mandasse chuva
Prá crescer a minha roça e vingar a criação
Pois veio a seca, e matou meu cafezal
Matou todo o meu arroz e secou meu argodão
Nesta colheita, meu carro ficou parado
Minha boiada carreira quase morre sem pastar
Eu fiz promessa, que o primeiro pingo d'água
Eu moiava a frô da santa, que tava em frente do altar
Eu esperei, uma sumana um mês inteiro
A roça tava tão seca dava pena a gente ver
Oiava o céu, cada nuvem que passava
Eu da santa me alembrava prá promessa não esquecer
Em pouco tempo, a roça ficou viçosa
A criação já pastava, floresceu meu cafezal
Fui na capela e levei três pingo d'água
Um foi o pingo da chuva... dois caiu do meu oiá

Pingo D'Água, Raul Torres e João Pacífico, 1944


Assista aqui, João Pacífico e Adauto Santos interpretando "Pingo D'Água" no programa Viola Minha Viola. exibido pela TV Cultura, em abril de 1992

12 Setembro 2006

AQUILO QUE NÃO SE ENSINA

Lembra quando você prestou vestibular?
Se não viveu isso ainda, certamente conhece alguém que passou madrugadas sem dormir estudando como louco, mesmo sem ter certeza do que gostaria de fazer da vida. Mas chega a hora de decidir. E aí você decide e vai em frente...
Minha primeira “profissão” foi arqueologia. Depois cientista, veterinária, professora, artista de circo, missionária, médica... É sério, já quis ser tudo isso. Mas quando chegou a hora, optei pelo jornalismo. Na verdade queria ser contadora de histórias e o jornalismo era o que mais chegava perto disso. Alguém já disse que “embora nenhum de nós vá viver para sempre, as histórias conseguem”. Acreditando nisso, continuo escrevendo. E mesmo amando o que faço, ainda me pergunto como teria sido a vida no circo...
Meu irmão caçula – hoje maior que eu em tamanho e maturidade – vai prestar vestibular. Somos muito parecidos. E assim como eu, ele já "escolheu” dezenas de profissões. Ele tem apenas 18 anos. E eu pergunto: quem é que sabe o que quer da vida aos 18 anos? Se eu fosse prestar vestibular hoje, provavelmente sairia do cursinho, compraria uma barraca e iria morar na praia. Uma idéia um pouco romântica, é verdade. Mas ainda assim poderia continuar contando histórias...
Gosto de muitos escritores. Mas “paixão” mesmo, tenho por poucos. Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretãs é uma dessas. Talvez você não a conheça por esse nome. Foi como Cora Coralina que essa goiana, uma autêntica contadora de histórias, ficou famosa. Cora só começou a escrever aos 14 anos, após completar apenas dois anos de escola primária – única escola que fez. Escreveu a vida toda, mas não foram seus poemas e dezenas histórias que me encantaram. Foi sua paixão pelo que fazia.

Cora escrevia sobre qualquer papel que lhe caísse às mãos: bordas de jornais, envelopes de cartas, cartões postais, papéis de embrulhar pão. Se tivesse tempo, passava a limpo. Caso contrário, ficavam por ali, esquecidos. Não escrevia para os outros. Escrevia apenas por paixão.
Hoje, enquanto meu irmão fazia sua inscrição para um dos muitos vestibulares que fará até o final do ano, fiquei pensando se ainda sou uma “contadora de histórias” ou se finalmente virei apenas jornalista. E mais uma vez me lembrei de Cora Coralina: faz de tua vida mesquinha um poema. E viverás no coração dos jovens e na memória das gerações que hão de vir.
Cora morreu aos 96 anos em 1985. Lançou sete livros, o primeiro deles aos 75 anos. Meu irmão tem apenas 18 e muitos “poemas” para fazer. Num deles vai encontrar aquilo que faz tanta falta aos jovens de hoje. Paixão. Isso, faculdade nenhuma ensina...

Não te deixes destruir...
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso aos que têm sede.

Aninha e suas pedras, de Cora Coralina (na foto) em outubro de 1981

11 Setembro 2006

VOCÊ SABE FAZER SABÃO?

“Vocês sabiam que o sabão é feito de gordura? Mas se é feito de gordura, como pode limpar?”

Já faz tempo... Eu estava me preparando para o vestibular quando meu professor de química veio com essa. Taí, nunca tinha pensado nisso. E foi tentando entender química que me lembrei do tacho de sabão fervendo no meio do terreiro da fazenda. Minha avó começava cedo, juntando a banha, a soda... Lembro-me das recomendações para não mexer na soda – porque “machucava” – e para nunca chegar perto do tacho de sabão.
A gente ia brincar e de vez em quando passava ali perto, dava uma espiada e ia embora. No final da tarde, o fogo já tinha virado cinza e aquele monte de banha tinha virado sabão. No dia seguinte minha avó “desenformava” aquilo tudo e cortava os pedaços de sabão que distribuía para toda família.
“Vocês sabiam que o sabão é feito de gordura?”. É, eu sabia sim.
Quando entra em contato com a sujeira, a gordura gruda nas partículas sujas e "desprende" a sujeira. A soda "suspende" os resíduos e o resto do serviço fica por conta da água, que leva tudo embora.
Complicado? Parece, mas não é não... Aliás, tudo que é complicado demais, na verdade é mais simples do que parece. A gente é que em mania de complicar tudo.
Vamos filosofar... Se a vida fosse um tacho (daqueles bem grandes mesmo), dava prá ir colocando lá dentro cada problema, decepção, raiva... Um monte de gordura que depois, bem lá na frente, viraria alguma coisa útil. Problemas não marcam hora prá entrar na vida da gente. Mas agora tá fácil! Antes de reclamar, misture tudo no tacho. Faça “sabão”. Sem querer fazer trocadilho, você vai se sentir de alma lavada.

Ah! E se sobrar um tempinho, pegue todo esse sabão e arrume um canudo. Lembra como era gostoso? Orlan Divo e Adilson Azevedo lembram e registraram prá ninguém mais esquecer na música Bolinhas de Sabão, de 1963.

Sentado na calçada de canudo e canequinha
Eu vi um garotinho fazer uma bolinha
Bolinha de sabão...
Eu fiquei a olhar e pedi para ver quando ele me chamou
E pediu pra com ele brincar
Foi então que eu vi como era bom brincar com bolinha de sabão
Ser criança é bom...
Agora vou passar a fazer bolinha de ilusão

08 Setembro 2006

VARANDA NÃO É ALPENDRE

“To com saudade de sentar no alpendre lá de casa...”

E estava mesmo. Há muito tempo não fazia isso. Mas nem deu prá terminar a frase. Verinha, a amiga que estava comigo na hora, ficou me olhando com cara de espanto, esperando eu explicar o que era “alpendre”. Sou paulista, mas morei muitos anos em Goiás e Mato Grosso do Sul. Me tornei goiana e sul matogrossense de coração. E desde que voltei para o Estado de São Paulo, já adulta e acostumada às expressões dos dois Estados que adotei, tive que me habituar a explicar algumas delas.

“Você não sabe o que é alpendre?”
“Não!”
“Alpendre? Que fica na frente da casa?”
“Ah... A varanda?”

Não, não é varanda. Quando fui procurar um apartamento para alugar pela primeira vez, percebi que todos os corretores faziam questão de salientar: “Esse imóvel é ótimo viu? Três quartos, fica no 11º andar e o melhor, tem varanda!” Estou aqui escrevendo e olhando pela “varanda” do meu apartamento. Quase todos os outros prédios à minha volta também têm “varandas”. Agora finalmente descobri porque a tal “varanda” é tão importante no prédio. Porque aqui todo mundo acha que varanda e alpendre são a mesma coisa. Não são.

“Claro que é... É tudo a mesma coisa”, insistiu a Verinha. Claro que não é! E não sou eu que estou falando isso não, é o Aurélio! “Varanda: balcão, sacada, terraço”. “Alpendre: espaço coberto e aberto na fachada de uma casa, que dá acesso ao interior”. Mas a diferença não acaba ai. É simples de entender: quem é que vai ficar na varanda do 11º andar de um prédio olhando alguém passar?

Quando era criança adorava ficar no alpendre brincando de casinha. Sempre passava uma ou outra menina da rua, via a brincadeira e parava para brincar também. Depois fiquei mocinha e o alpendre ficou ainda mais interessante. Minhas amigas e eu passávamos as tardes de domingo sentadas no alpendre conversando. Ou fingindo que conversávamos enquanto esperávamos passar “alguém”interessante na rua. E hoje, quando visito meus pais, o mesmo alpendre é o lugar onde colocamos a conversa em dia, enquanto os vizinhos vão chegando prá esticar e participar da conversa também.

Conhecíamos todos os alpendres da cidade. Tinha alpendre tão grande que as festas aconteciam nele. Só nele. Não precisam nem entrar na casa. Imagine agora dar uma festinha aí na “varanda” do seu apartamento... “Ah, entendi! Alpendre é coisa de velho!”, concluiu minha amiga. Deve ser mesmo. Parece que isso tudo aconteceu há tanto tempo. Mas nossa, como era bom!

Se você sentar na “varanda” do seu apartamento, talvez veja um passarinho voando ali por perto. Talvez veja a “varanda” do prédio da frente. Mas se você tivesse um “alpendre” ao invés de uma “varanda”, provavelmente conheceria melhor seu vizinho. Talvez receberia mais visitas. Ou simplesmente teria prazer de sentar lá no finalzinho da tarde só para ler um livro, tomar uma cervejinha ou simplesmente ficar olhando o movimento.


Meus pais tem em casa tudo o que a tecnologia oferece hoje – televisão, canal a cabo, DVD, internet... Mas todo dia sentam juntos no “alpendre” para conversar. Eles sabem o que é um alpendre. São casados há quase 30 anos. E nunca moraram em apartamento com varanda.

Prá explicar melhor isso tudo, aí vai mais uma do João Pacífico (essa em parceria com Edmundo Souto), que sabe melhor que ninguém falar dessas coisas da nossa gente...

Alpendre da saudade

Às vezes fico no alpendre da fazenda
Contemplando a vivenda onde eu era tão feliz
E bem na frente um barranco ao pé da estrada
Foi passagem de boiada tão pisado
O chão me diz: por quê? Por que você mudou?
Por que se afastou de mim?
Eu sou apenas uma estrada não sou mais pisada
E tão abandonada, enfim eu sou apenas uma estrada
Não sou mais pisada e tão abandonada, enfim
De que me adianta esse alpendre da fazenda
Que eu troquei pela vivenda por ser tão cheia de pó
Mas era um pó cheio de felicidade, hoje é pó da saudade
Aqui eu chorando, aqui tão só
Eu sei, eu sei qual a razão
Pois o meu coração me diz
Mas quando eu pego na viola
Ela me consola, ela é que me faz feliz

07 Setembro 2006

EM TERRA DE CEGO, QUEM TEM UM OLHO É REI

Saber contar uma boa história é o mínimo que se pede na minha profissão. Mas às vezes, a história é tão boa, que eu nem sei por onde começar... Essa por exemplo, que você vai ler aí em baixo, é ótima. Tanto que nem parece ser verdade. Mas é, juro! Aconteceu mesmo e quem lembrou desse “causo” foi meu pai (aí na foto), que garantiu: é verdade mesmo! Vamos fazer assim, eu conto o que aconteceu e você tira suas conclusões.
Na década de 80 morávamos em Caçu, interior de Goiás. Lá pelos idos das campanhas políticas de 1989, tínhamos um vizinho sitiante chamado Manoel Barroso. Como todo homem do campo, era conhecido por gostar de tomar uma branquinha. Mas o que chamava a atenção mesmo no seo Barroso é que ele tinha um olho de vidro. Passei boa parte da infância tentando descobrir qual dos olhos era "de mentirinha"...
Durante a campanha do município vizinho ao da nossa fazenda, após um comício de um sobrinho seu, o seo Barroso sentiu aquela vontade de tomar uma cervejinha. Apesar do dinheiro ter acabado, nosso vizinho não se deu por vencido! Seguiu com sua camionete para o boteco mais próximo e não demorou muito para encontrar um desconhecido tomando a dita cuja cerveja que ele tanto queria...
Seo Barroso encostou no balcão e ficou fazendo fita por algum tempo. De repente, começou a “morder o ar”. Imagine a cena! É claro que chamou a atenção do rapaz que tomava sossegado sua cerveja... Sem pestanejar desafiou: “quer apostar uma cerveja comigo que eu sou capaz de morder meu olho direito?”. Não é todo dia que você escuta uma proposta dessa né? E aí, dúvida daqui, briga dali, a aposta foi feita! Mais que depressa o velhaco do Barroso tirou o olho de vidro e tascou-lhe uma dentada! A cara do sujeito que perdeu a aposta foi a mesma que você deve estar fazendo agora...
Mas a história não parou por aí não! Seo Barroso – que estava com muita sede naquela noite – propôs um novo desafio: “quer apostar outra cerveja que eu mordo meu outro olho?". O desconhecido matutou: “cego dos dois olhos este danado não é! Chegou aqui guiando esta caminhonete velha...”. A curiosidade venceu e seo Barroso garantiu mais uma cerveja! Sem pensar duas vezes, meteu as mãos na boca, tirou a dentadura e crau! Com jeito de quem já tinha feito aquilo muitas vezes antes, “mordeu” o olho esquerdo.
Seo Barroso conta que nunca tomou duas cervejas tão gostosas como naquela noite... E ainda me deu de presente esse causo que de tanto passar prá frente, já virou meio folclore. Mas é verdade, garanto! Quer apostar?
FIOZINHO D'ÁGUA

Um fiozinho d' água desviou de um riacho
Veio vindo serra abaixo e passou no meu pomar
Encontrou uma pedra ficou sua companheira
Brincaram de cachoeira e aqui ficaram pra morar.
E hoje da janela eu contemplo a cachoeirinha
Que ficou minha vizinha desde que a vi nascer
Seu murmúrio doce é um verdadeiro canto
É quem me serve de acalanto para eu adormecer

João Pacífico escreveu o poema acima em 1991. Em 1998, fez questão de recitá-lo em um almoço com amigos, no dia 28 de dezembro, dois dias antes de morrer, aos 89 anos. Viu durante seus 89 anos o mundo que ele conhecia mudar de cara dezenas de vezes. No entanto conseguiu manter cristalina sua pureza, sua “paciência” que acabou lhe rendendo o apelido de Pacífico. Como um fio d’água ele viveu e desviou riachos, curvas e pedras para chegar ao seu destino.
Um fiozinho d' água desviou de um riacho...
Passei boa parte da minha infância na fazenda. Nesta época meu pai tinha o costume de sentar ao meu lado depois do jantar. No alpendre (é assim que os goianos chamam a varanda da frente da casa) ou no meio do terreiro, a gente ficava conversando, falando um pouco de tudo.
Sem energia elétrica na fazenda (portanto sem televisão), tínhamos tempo de sobra para conversar sobre o que quiséssemos. Foi sem dúvida um dos melhores anos da minha vida. Só que aí eu cresci.
Mudamos para a cidade e nossas conversas ficaram cada vez mais curtas. Hoje, longe de casa, sinto saudade da falta de luz elétrica que me permitia ver todas as estrelas no céu. Sinto falta da brisa fresca que tomava conta de toda a sede da fazenda durante a noite. Do cheiro do mato, de café torrado, do leite no curral... Mas sinto saudade mesmo é do tempo...
Hoje quando a saudade aperta me sinto como o fiozinho d’água de João Pacífico, desviando dos riachos. Em momentos assim fecho o olho e consigo até sentir o cheiro do mato. Dói um pouco, mas também ajuda a continuar procurando o caminho do mar...

Me dá licença estou chegando lá do mato
Moro longe desse asfalto
Atrás da serra é o meu rincão
Lá onde eu moro
Não existe luz na rua
Moro onde nasce a lua
Que tem nome de sertão
E não reparem na minha simplicidade
A grande felicidade
Foi nascer neste lugar...

Trecho de Gostinho de Saudade de João Pacífico e Piraci
SE ME CHAMAM DE CAIPIRA...

Em 2005 a TV Cultura de São Paulo transmitiu o documentário Quem Tem Medo de Ser Caipira?. Achei engraçada a pergunta porque cresci na fazenda ouvindo meu pai falar de seu orgulho em ser caipira. Aos poucos fui associando a imagem de caipira a imagem do caipira que eu tinha em casa: um caboclo forte, trabalhador, de coração mole e apaixonado pelo Brasil.

Cresci. E hoje sei que também sou caipira. Por isso quando vi o anúncio do documentário fiquei me perguntando como alguém poderia ter medo de ser caipira. Medo de ser aquilo que eu mais me orgulho.
O fato é que muita gente ainda confunde o que é ser caipira. Enxergam apenas aquele bicho do mato, idealizado por Monteiro Lobato, o matuto inocente e sujeito a gozações. Por certo quem ainda “tem medo de ser caipira”, precisa antes de mais nada estudar a fundo a história desse País feito, formado e sustentado por muitos caipiras.
A ignorância em relação à cultura caipira é tamanha que até mesmo nossos líderes já mostraram não conhecer seu povo. Em 1996, durante uma viagem diplomática a Lisboa, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou que o povo brasileiro “tinha mentalidade caipira, por rejeitar a globalização e a idéia de relacionar-se com o mundo”. É bom que fique claro a diferença: não estou falando do sertanejo, estou falando do caipira mesmo. Zé Mulato e Cassiano souberam como poucos explicar o que quero dizer. Nos versos de Navegante das Gerais, os dois cantam:

Se me chamam de caipira

Fico até agradecido
Pois falando sertanejo
Eu posso ser confundido
(...) Defendo nossas raízes

Por isso tenho brigado
Não escondo minha origem
Sou caipira liberado
Minha modinha é singela

Igual a flor do cerrado
Mas é sertão brasileiro
Tudo o que eu tenho cantado
Infelizmente o que vejo

É um bando de sertanejo
Com mania de importado

Os jornalistas Assis Ângelo e Mouzar Benedito também já apontaram em seus estudos as diferenças entre o caipira e o sertanejo. "A música caipira é feita pelo homem da roça, sem influência do country americano, sem instrumentação eletrônica, apenas com viola e violão. Já sertanejo está mais próximo do country e das guarânias paraguaias”.
Prá quem ainda não entendeu o que é ser caipira, é muito fácil descobrir. Basta deixar de lado o “medo de ser caipira” , pegar o “caminho da roça” e atender o convite que Tião Carreiro e Pardinho fizeram em 1968 em sua música Encantos da Natureza:

Tu que não tiveste a felicidade
deixa a cidade, vem conhecer
meu sertão querido, meu reino encantado
meu berço adorado que me viu nascer

venha o mais depressa, não fique pensando
estou te esperando para te mostrar

vou mostrar os lindos rios de águas claras
e as belezas raras do nosso luar


Na imagem, o quadro de José Ferraz de Almeida Júnior, 1893, "O Caipira Picando Fumo", exposto em Pinacoteca de São Paulo

FRANGUINHO NA PANELA

Tenho o costume de deixar o rádio ligado enquanto escrevo. A música me ajuda a trabalhar melhor. Nem sempre estou prestando atenção no que está tocando, mas a melodia que invade o lugar parece invadir a mim também.
Às vezes, quando não decido o que quero escutar, deixo o rádio ligado em alguma estação. Hoje, enquanto me preparava para escrever, ouvi uma melodia conhecida, aumentei um pouco o volume e lá estava. As vozes que entoavam a canção não eram as mesmas que eu conhecia. Mas a música era a mesma que Moacyr dos Santos e Paraíso escreveram há muito tempo e que Craveiro e Craveirinho gravaram: Franguinho na Panela.
Por um instante a música me fez voltar a ser criança. Quem nasceu onde a terra é mais vermelha, onde a gente acorda escutando passarinho e o céu fica colorido no fim do dia, vai entender o que quero dizer. A comida da roça para mim tem um gosto diferente, gosto de infância.
Cresci numa fazenda no interior de Goiás. Domingo era sinônimo de galinha caipira feita na panela de ferro e fogão a lenha. Com aquele “caldinho” gostoso que a gente misturava no arroz com feijão.
Em dia de festa o almoço saia da varanda e ia para baixo da sete-copas que ficava no quintal. A mesa era improvisada: algumas tábuas sustentadas por dois cavaletes. A gente sentava em volta, nos bancos improvisados também com algumas tábuas e tocos de madeira. Minhas primas vinham da cidade e a gente ficava ali, entre histórias e causos dos mais velhos, rindo das piadas que nem sempre a gente entendia, mas ria mesmo assim.
De vez em quando saia briga na hora de escolher o pedaço de frango na panela. Desde muito pequena, aprendi a brincar com aquele pedaço do frango que tem um osso em formato de "v". Acreditávamos seriamente que quem quebrasse o maior pedaço daquele osso tinha direito a um pedido. A esta altura já não me lembro quais eram os pedidos que eu fazia, mas me lembro da decepção quando perdia o direito de fazê-los.A letra da música que tocava no rádio é muito simples. Simples como foi minha infância. O que me encanta nela, entretanto, é a pureza utilizada para dizer como a vida pode ser intensa, simples e ao mesmo tempo encantadora.
Com pouco mais de seis ou sete anos, eu só precisava de um “franguinho na panela” prá me fazer feliz. E hoje, apenas a lembrança dele fez meu dia ficar muito melhor...
COMPONDO UMA HISTÓRIA
E no começo era o som, a melodia.
Aos poucos, lentamente, a música também passou a ser letra e poesia.
E com o passar dos anos a música transformou-se em interpretação, atitude, dança, emoção.
Não trabalho com música, sou jornalista. Mas, como já disse Marcelo Spalding Perez, “para falar de música não é preciso fazer faculdade, nem tocar algum instrumento. Em compensação podemos escrever como os poetas, que transformam tudo em versos”. Então, para falar de música nesta primeira postagem, escreverei com as mãos, o ouvido e o coração.
Gosto de citar trechos de músicas em meus textos porque o universo musical brasileiro é imenso, rico e maravilhosamente belo. A maioria das músicas tem a sabedoria genuína, intrínseca de um povo que nasceu junto à lida, afeiçoado ao trabalho. Gente que luta e batalha com garra e fé. Que reverencia com gratidão os pequenos grandes prazeres desta vida.
Os compositores Renato Teixeira e Almir Sater fazem parte deste universo e num dia de inspiração (típico das raízes brasileiras) compuseram:

Cada um de nós compõe a sua história
E cada ser em si carrega o dom de ser capaz, de ser feliz


Com um site novinho em folha, “uma página em branco” pronta para ser escrita, Viola Quebrada é mais um desafio que começa com a competência de fazer, contar, de compor histórias. Ser capaz de transformar em frutos as sementes que são semeadas agora. Porque como já diz o sábio cancioneiro brasileiro, cada um carrega o dom de ser capaz...